4.4.15

Corram para as colinas

Acusado de matar advogada na Tijuca é preso pela polícia em Manguinhos


Leia a reportagem do Jornal O Dia no link acima antes de seguir para o texto abaixo.

Fiquei sabendo do fato, claro. Foi bem divulgado na minha cidade. Vi na TV um monte de vezes, mas ao ler essa reportagem, pus-me a pensar/considerar...
* A violência nunca está longe de nós - no Rio, em especial. Aconteceu no meu quintal. Poderia ser comigo, meus familiares, amigos. E foi com a amiga de uma amiga. Grau 2 de separação, portanto.
* Silvia Maria morreu por causa de um cordão. Um cordão de outra pessoa. Ou seja: adianta você tentar se proteger saindo à rua sem nada que chame atenção? Não adiantou para ela. Não adiantaria para ninguém naquela situação. Segundo relatos, o cara saiu atirando a esmo para que as pessoas que atravessavam a galeria abrissem espaço para eles fugirem sem encontrões. 
* A situação está medonha, em especial, para a classe média. Gente vendendo o almoço para comprar o jantar. Cada qual se virando no orçamento apertado. E vagabundo vai roubar na Tijuca. Faz sentido tentar garimpar onde pouco se tem?! Mas sempre foi assim, pobre roubando de pobre... O assalto a ônibus já "esteve na moda" e diz muito sobre uma sociedade (não que algum tipo de assalto seja justificável. Não, não é. Nem a pessoas e nem a instituições. Mas pobre tirando de pobre me fala muito da miséria moral humana). E não foi apenas esse cidadão! A Tijuca está uma terra de ninguém, com ocorrências sistemáticas nas páginas dos jornais. Fora as que a gente não sabe e não vê (e as autoridades competentes fingem que não sabem e que não estão vendo).
* Falar que a situação está ruim por falta de oportunidade ou em função de criação me parece algo muito simplista; a desculpa da vez de todas as vezes. Tanto esse moço é de "berço" bom, que seu esconderijo foi denunciado por parentes (A TV diz que foi a própria mãe dele a denunciante). Para mim ter berço é ter dignidade. O que essa mãe mostrou ter. E muita! E crio a criatura que já foi pega duas vezes roubando na mesma região. 
* A falta de qualquer tipo de senso, medo ou a certeza da impunidade faz com que pessoas assaltem as outras na rua mais movimentada de um bairro tradicional, cheio de quartel de tudo que é Força, no meio da tarde.
* Minha mãe já teve o cordão puxado algumas vezes ali naquela região (todos falsos). Devo ficar feliz dela ainda estar viva, não é? será apenas isso o que nos resta? Agradecer não pela vida, mas por não termos sido assassinados?! Eu já tive uma arma apontada para minha cabeça em função dessa levadinha na Tijuca. Ou seja, ne... Tive "sorte" de não morrer. 
* "...Lúcio havia sido preso em setembro do ano passado, por roubo qualificado na região da Tijuca, e foi posto em liberdade em fevereiro deste ano", diz um trecho da matéria - O que?! Tá de sacanagem, né? Voltou e para a mesma região?
* Alguém duvida que essa mobilização toda das autoridades para encontrar o meliante seja "apenas" porque a corporação policial está tomando uma sova da opinião pública em função da morte do menino no Alemão? Hão de provar de onde veio essa bala. E não acho que a polícia, enquanto grupo, tenha culpa pelo que acontece na cidade não... Não consigo imaginar que tipo de coragem é preciso para se candidatar a um cargo tão perigoso, mal remunerado e pouco treinado para enfrentar oponentes fortemente armados que não tem nada a perder. 
* "...a bala que matou a advogada não foi encontrada", diz a reportagem.
Eu não sei se é torpor, se as pessoas já desistiram de se revoltar, se é um jeito natural do brasileiro de aceitar as dificuldades impostas... Não sei. Mas está ficando cada dia mais difícil sufocar esse grito na garganta. Tudo está ruim. Ver e ler jornal anda me dando muita angústia e desesperança. Ir ao mercado me deprime, em função da escalada de preços. Estou quase acreditando que a solução é correr para as colinas...


***
Depois que escrevi, duas amigas fizeram comentários, que achei pertinente trazer para cá.

Amiga 1 - Compartilho do mesmo pensamento. Está muito difícil...

Bibi - Eu não fazia compras quando a inflação era uma realidade, um dragão, como diziam, mas tinha entendimento para perceber o que acontecia dentro de casa. Sofremos também as consequências do Plano Collor e ai eu já tinha mais idade e ainda mais razão... Estou sentindo essas coisas voltarem e é assustador! Aliado à escalada da violência, a depressão e as doenças psicossomáticas tomando conta da sociedade, as roubalheiras públicas, as revistas e editoras fechando as portas (meu mercado de trabalho), nossos direitos individuais sendo negligenciados. Muito ruim. Muito sem horizonte. Muita necessidade de Deus. Mas Deus, sendo justo como é, vai deixar a sociedade sofrer as consequências das suas escolhas, não acha? São nossas escolhas (individuas e coletivas), no fim das contas. Depois fica todo mundo se perguntando "onde está Deus".

Amiga 2 - Não consigo me acostumar com a banalização da vida!! Aqui a vida de um ser humano vale menos que um cordão, um celular ou um tênis.
Bibi - Eu estou me sentindo sufocada. Vontade de me alienar, mas isso não resolveria nem parte do problema. Acho que até o cara que decide ser eremita está sujeito à bala perdida.
Amiga 1 - Escrevi sobre estarmos vivendo em uma terra sitiada... Pedindo a Deus que tenha misericórdia de nós. Concordo com você, quando diz que tudo parece estar voltando... Só que de forma muito pior, né? 

Bibi - Cara, uma vez na igreja e uma bala perdida furou o teto de amianto, correu entre mim e uma moça e queimou a perna dela, caindo ao chão. Só vimos que era bala, porque caiu ao chão. Podia ter entrado nela e a gente nem saberia do se tratava. Achei aquilo uma loucura tão grande... A gente estava dentro de um galpão, no terreno da igreja, conversando. Podia ter furado a minha cabeça ou entrado pela coluna dela. Foi um segundo. E nem barulho de tiro pela redondeza a gente ouviu. Ou seja: nem adianta tentar se proteger!



28.3.15

sobre a delicadeza do ser


Não acho que a vida seja injusta, não. Só acho que a gente tem que aprender a "jogar o jogo da vida", digamos assim. Se alegrar nas horas boas e tentar superar as fases ruins. Se puder tirar algo de construtivo de cada uma dessas etapas, melhor para você. Se puder alargar os "espaços internos" e criar mecanismos que te protejam de si e dos eventos que te ferem, supimpa! Se conseguir evitar a criação de barreiras e carapaças que te afastem daquilo que é simplesmente viver, o caminho se torna mais suave. Mas tem horas que é preciso jogar a toalha e contar com aquele elemento imponderável chamado fé e amor de Deus. Com esses elemento em cena, não há jogo perdido, não há game over. Apelo. Mesmo. De coração aberto, já que esse mês foi totalmente atípico. 

Perdi meu primo Toninho praticamente na mesma semana que tia Maria descansou; minha amiga querida perdeu seu bebê e me deixou um pouco sem chão também. Hoje fui enterrar o meu "avô-torto" e chorar com a família que um dia foi minha. "Se alegrar com os que se alegram e chorar com os que choram", a regra é clara. Mas, ao chegar em casa, vem outra bordoada! D. Terezinha, a vizinha que me viu nascer e crescer, por quem nutro um afeto imenso, também se foi hoje... Cinco enterros/despedidas em um mês. Eu sei que não parece fácil (e não está sendo). Eu sei também que parece mais difícil do que realmente é (o fardo nunca é maior do que aquele que você pode carregar). Deveria não fazer desse espaço público, o meu confessionário pessoal. Mas sabe? A nossa dor também ensina. A nós e a quem nos cerca de atenção. 

Aprendo e divido sobre humildade, sobre a delicadeza do ser de cada um de nós; falo sobre superação e também sobre coisas que absolutamente fogem ao nosso controle: o jogo da vida. Quem acha que comanda alguma coisa, a si mesmo se engana. E a vida não respeita e nem perdoa os tolos. Os inocentes sim; os tolos, não. Quem olha apenas para aquilo que sua mão pode tocar e construir deixa de lado a maior das arquiteturas a ser executada: seu interior. É preciso equidade. E fé.

23.3.15

Minha Dora


Essa linda da foto se chama Dora. É a minha caçula. Resgatei da rua tem um tempo e hoje faz companhia para Nina. Está muito bem adaptada. Engordou bastante, já que chegou pele e osso. Meiga. Observadora. Sempre faminta. Muitas vezes folgada, como bem mostra a foto. Medrosa, deixa as aventuras para a Nina. É muito amor no meu lar.



  

22.3.15

frase







"Antes das coisas virem a existir, concretamente, elas foram criadas dentro de nós. Precisam encontrar o plano certo, o desejo exato, seu lugar para germinar e crescer" 
(Bia Amorim)







fera enjaulada

Li essa notícia no Jornal Extra, do Rio, nesse fim de domingo chuvoso. Tinha ouvido por alto, na TV, mais cedo... Mas só escutei sobre um incêndio causado por um prato elétrico e não sobre as vítimas... Pessoas mudam tudo.






Não sei nem precisar, medir, imaginar que tipo de dor é essa. "Perdi tudo", ele diz. Chorei lendo a matéria. Penso na história de Jó, da Bíblia, e lembro que ele perdeu tudo, mas foi restituído. "Mas os 10 filhos que se foram devem ter deixado marcas que não se apagam" - eu teimo em pensar. "Nem outros 10 filhos apagam os que já foram. Amenizam, mas será que apagam?" - sigo a refletir, sem chegar a uma conclusão. Coisas são restituídas. Pessoas mudam tudo. 

Então, me acho pequena. Carrego comigo as minhas dores, mas as dores não só minhas. Suas dores não são só suas, embora o sofrimento pareça nos tirar a capacidade da percepção do outro. Ou da possibilidade de semelhante agonia. Até que a gente encontre um lugar (para ela).

 Escondo as minhas dores de mim mesma, momentaneamente, para me solidarizar com a dor do outro. Um outro que nem conheço. E com outros, tão mais perto. Redimensiono algumas questões internas, mas o que incomoda sempre volta a nos lembrar do tamanho da nossa fragilidade. A inconstância da vida. Nossa transitoriedade. 

As nossas dores sempre parecem doer um pouco mais, porque as cultivamos internamente como bichos de estimação por muito tempo. Há quem não mais se reconheça sem a presença escura e fria de certas dores. Há dores que formam - ou deformam - o caráter de alguém. Distorcem o íntimo, quando não elaboradas. Acontece que dores são feras selvagens enjauladas: estão sempre prontas para nos devorar...

18.3.15

Entre partir e ficar


"Queria que o abraço mais caloroso e reconfortante pudesse ser mandado por e-mail e chegasse aos destinatários agorinha.
Quando as palavras não fazem o menor sentido, o ABRAÇO sempre diz muito. Sempre."
(Bia Amorim)


Essa frase - que criei e postei há alguns dias -, volta ser a mais plena verdade. "Queria que o abraço mais caloroso e reconfortante pudesse ser mandado por e-mail (wifi, sinal de fumaça, por telepatia) e chegasse aos destinatários agorinha. Quando as palavras não fazem o menor sentido, o ABRAÇO sempre diz muito. Sempre". Mais uma partida. A terceira despedida em menos de duas semanas. Mês de março não está fácil não! Logo o "meu" mês me exigindo tanto. 

Dessa vez não foi na família (uma colega de trabalho teve uma perda muito dura hoje). Ainda assim, me fez chorar mais que as outras despedidas. Talvez porque quem está perdendo hoje não tenha noção do tamanho do meu afeto e admiração. E me pergunto: é possível que todo mundo que faz parte da sua história afetiva saiba o tamanho daquilo que você sente? Impossível! Contudo,  isso hoje me chateou... As vezes você nem é amado (chame a isso também de querido, apreciado, considerado) da mesma maneira em retribuição. As vezes você se toma de ternura, porque é impossível criar uma barreira no coração, na alma, para aquilo que vem e que fica. Sentimentos não se explicam, de fato. Não se medem. Não se repelem. Não podem ser exigidos e se sinceros, não conseguem ser programados. 

Eu sou intensa: gosto muito de muita gente. O que é bom e ruim. Venho aprendendo a lidar com a questão da afetividade. Expectativas. Frustrações. Tudo que as relações humanas de alguma maneira nos trazem. Um beijo "bem apertado" para essa minha amiga. Nesse instante dei o melhor que podia a ela: pedi a Deus o seu consolo. Só Ele.

17.3.15

Ursinhos Carinhosos



Essa é minha vida:

Estava muito revoltada com a qualidade dos serviços oferecidos aqui no Rio (no Brasil, em geral; no Rio, especificamente). Queria escrever um texto sobre tudo que venho passando apenas nesses últimos dias e o despreparo de todo tipo de funcionários em uma cidade turística, sede das próximas Olimpíadas.
Um dos grandes motivos foi uma simples marcação de exame de sangue. Simples? Passei dois dias tentando marcar uma coleta domiciliar. Eu faço sempre, mas eles sempre se atrasam. Meu único pedido foi: "pode não atrasar?". Pronto, me mandaram ligar para outra unidade, que não atendia NUNCA. Só fiquei ouvindo musiquinha. O que irrita mais, a bem da verdade. 
Voltei para a primeira atendente, agora pelo whatsup (sim! Acreditem!). E foi o que funcionou. Comecei a conversa firme, durona, querendo expressar a minha total indignação de consumidora mal atendida. Não durou uma frase...  

No final do processo, a atendente me escreve:
- Obrigada por não desistir. Se eu puder fazer qualquer outra coisa pela "senhora", pode me procurar! A senhora é muito educada e carinhosa.
Kkkkkkkkkkkkk

"A senhora é muito educada e carinhosa"


Fui chamada de carinhosa por uma total desconhecida! E com quem eu teclava, sem tom de voz, portanto. Educada eu parto do princípio de que todos nós devemos ser, mas carinhosa... Me surpreendeu. Tudo porque eu só queria dar um pito e liberar a tensão! FAIL!

Passa a régua! 

12.3.15

Fechar um ciclo



Mais de uma semana do dia que meu primo morreu - em um Cruzeiro no Uruguai - até o corpo chegar para ser sepultado. Isso, porque tinha seguro! Sofrem família e amigos. O rito de passagem é fundamental. Todo meu sentimento aqueles que não conseguem enterrar os seus. Não pelo corpo ou pela 'alma do morto', que não está mais ali. Mas pela necessária despedida e fechamento de um ciclo para os que ficam. Ele tinha 62 anos. Era um menino. Minha mãe vai fazer 79 e ainda vejo uma menina dentro do seu olhar. A despedida não é fácil para nenhum dos termos a que ela se apresenta.

A despedida não é fácil para nenhum dos termos a que ela se apresenta.

O desafio não está do lado de fora

Foto dos Pirineus por Christina Oiticica

Não é o que a gente tem. Muito menos aquilo que nos falta. A questão da felicidade se encontra em como fazemos uso "internamente" de cada uma dessas porções. As vezes tem a ver com o caráter, noutras tantas trata-se de função química. A experiência - individual, estritamente pessoal - do "copo meio cheio ou meio vazio" transcende a filosofia barata de botequim. 

A vida sempre parece mais fácil para quem olha de fora. Inclusive para nós mesmos. O ser humano é capaz de esconder de si muitas questões. E segue seu curso em agonia mascarada. Até quando não se sabe. As vezes por uma existência inteira. O maior desafio não está do lado de fora, mas começa pelo lado de dentro.

O ser humano é capaz de esconder de si muitas questões. E segue seu curso em agonia mascarada.

9.3.15

As pessoas não gostam de falar de morte


No geral as pessoas não gostam de falar de morte. Não estou citando a maneira mórbida de encarar a questão, mas sob o ponto de vista de que é algo natural, que a gente nunca está preparado para enfrentar - nem digo a nossa própria, mas daqueles que amamos -, mas que faz parte da história de todos nós. Perdi meu primo ontem (5/03). No susto. Aos 62 anos, durante um cruzeiro em águas do Uruguai. Ele realizava um sonho. O último. Estava feliz.

Lembrei do meu pai. Não só da sua morte, mas da maneira como ele teve que lidar com a partida do pai desse meu primo, seu irmão mais velho (meu tio, portanto). Papai era de contar as mesmas histórias. Falava muito, sobre o mesmo. No mais, era de poucas e boas palavras. Pontual. Quando Tio Enir morreu, ele pegou um bandolim no fundo do armário, velho, que quase nunca saia de lá, envolto em plástico e tocou. Um som vivo. Forte. Um lamento. Sua despedida. Lírica. Lúdica. Sincera. Uma homenagem sem plateia. Era ele e seu bandolim a sor no meio de uma noite triste. Arrumou um jeito de fazer a dor caber para cessar. 

Achei que com a partida do meu pai, minhas histórias sobre ele fossem parar. Mas até depois de partir, meu pai me ensina. Está vivo dentro de mim, através de cada lição que consegui captar. E outras que vão despertando - feito essa. Então pensei em como seria a minha despedida de longe do Toninho. Como fazer a dor caber para cessar? Como prestar a minha homenagem em uma despedida que tivesse significância para mim? Somos individualistas na hora de elaborar a perda, embora tudo o que a gente mais deseja é abraçar os mais chegados: viúva, filhas, irmãos e mãe. Como se esse calor de um abraço ajudasse a preencher um espaço aparentemente vazio. Depois é que a gente percebe que esse espaço sempre esteve e estará preenchido. É só o susto da ruptura. Quem por nós é amado não morre, transcende. 

Faço, então, da minha reflexão a música que papai começou. E jogo no ar. Faço da minha arte de usar as palavras, o meu memorial. Talvez para sempre use desse artifício, um predicado para registro próprio do inevitável, a fim de ressignificar esse novo espaço aparentemente vazio. Para trazer para dentro a minha família amada, que se mostrou presente e tão unida na dor, assim como faz na alegria. E como faz! Que bom que não me sinto sozinha. Que bom que a morte não é um fim em si mesma. Nem vazio. Apenas uma oportunidade. Cada qual decide de que.

Não é o meu dia, mas quem fez parte dele


Ficar mais velha não é legal, mas fico tranquila porque ainda não pesa (risos). Agora fazer aniversário, por outro lado, tem sido muito, muito bom. Sim, já foi esquisito, mas consegui transformar o significado do dia e tudo ficou melhor: por dentro e por fora. No sábado, 7, estive com a família que a vida foi agregando, que Deus foi me deixando escolher. Claro, faltou gente. Mas quem almoçou comigo faz diferença na minha história. Agrega. Constrói. Carrega. Ama. Compreende. Apoia. Pessoas que nunca tacariam as pedras, mas me ajudariam a juntá-las para fazer o meu jardim. 

No dia seguinte, sigo sendo amada pela família que Deus me deu através dos laços de sangue. É muito amor envolvido e que nos renova. Mas sabe o que é fagulha, combustível de coisas boas, bolhas de amor, chuvas de bênçãos? Os recadinhos deixados na minha timeline (Facebook). O tempo é dos sem-tempo. A correria é a pauta do dia das grandes cidades e ninguém está livre do estresse que esse movimento causa. Então, quero crer que é um ato de extremo carinho alguém dispor de seu tempo, sua mente, para escrever algo de bom para o outro. A energia que isso traz para o dia é algo semelhante ao renascer de uma esperança. 

Eu amei cada frase, cada gesto, cada registro ofertado a mim. Gente de tão, tão distante... E aqueles mais perto que nunca consigo ver. E os de dentro, claro. Acho mágico quando alguém se volta a você num desejo de coisas boas. É isso que torna o dia especial: não é o meu dia, mas quem fez parte dele. Li cada recadinho mais de uma vez. Aqueci meu coração. Agradeço a Deus pelo estímulo. E quero crer que eu comece a entender que o hoje é preciso ser vivido hoje. E que o amanhã pode ser uma linda e desafiadora incógnita esperando pelos meus próprios estímulos. 

Agradeço a Deus pelos meus novos amores: Nina e Dora. Nina começou o dia internada, mas no fim da tarde já estava no meu colo, me lotando de carinho (ou eu a ela, pobrezinha). Isso também foi um presente. Não era rim, era cistite. Deus cuida também dos pequenos detalhes. Que possamos aprender que o nosso melhor sempre é suficiente, se o fazemos do fundo do coração, com bondade e sinceridade. O mais, não é trabalho nosso. Deixa nas mãos de quem pode. Obrigada meus lindos!

9 anos do Bibi de Bicicleta



"Anoiteço e amanheço eu"

Sempre por aqui e por ai. Existindo e resistindo. Buscando a medida do possível em muitos dias que me parecem impossíveis. Partindo e ficando. Buscando e deixando ir. É o fluxo e refluxo da vida nas letras também. Na inspiração, principalmente. Penso em terminar tudo, então, me lembro da caminhada. Tão boa e pródiga nesse blog. Fico entre o norte e o sul, me enchendo e me esvaziando de mim, das coisas, dos pensamentos frenéticos, de pessoas tóxicas, mas também dos que têm palavras boas, brilhos nos olhos, força no abraço, no braço, fogos no olhar. 

O Bibi de Bicicleta foi criado no final de fevereiro de 2006. Resiste. Insisto. Lá se vão 9 anos de muitos ganhos. Muitos. Não lembro de nada que o blog me tenha feito perder. Celebrei no sábado (junto com a minha existência) esses 9 anos, que passaram voando e também de forma tão lenta. Não sabia no que ia dar. Ainda não sei. Permaneço. Torço por mim mesma, como se fosse eu a olhar um pedaço da minha alma para fora do corpo.

  

5.12.14


29.11.14

Pensamentos de Nélida Piñon

"Tenho um sustentáculo muito grande: aprendi que só posso ser moderna, se eu for arcaica. Eu carrego comigo uma sólida tradição. A tradição é o mais moderno que existe, porque ela é a ponte por onde você passa todos os dias. Se você não entender o valor construtivo e fundacional da tradição, você não chega onde precisa estar; não entende o que é possivelmente moderno e o que é possivelmente contemporâneo. Tenho a sorte de ver o contemporâneo com visão crítica, procurando entender o que é melhor para todos nós e aquilo que é falso, fake, uma fraude. A contemporaneidade pode ser uma fraude, quando ela desconsidera valores fundacionais. Como se ela pudesse pautar a vida com a tecnologia. A tecnologia é uma maravilha, mas não esclareceu o mistério da alma. Ainda somos seres que nadamos na tormenta dos mares sem saber quem vai nos salvar. Nesse sentido, acho fascinante: estamos impregnados pelo enigma e pelo mistério. Nós não sabemos quem somos totalmente. Estou sempre querendo aprender, mas aprendo sabendo que não estou me descartando de nada do que sei. A contemporaneidade não pode entrar na minha vida em troca de algo, exigindo algo de mim. Não posso perder nada para ser contemporânea" - Nélida Piñon em entrevista que fiz para a Revista Caras em novembro de 2014.

28.11.14

escolhas demandam coragem



Gosto de frases. Faço as minhas, leio a dos outros. Algumas marcam, já outras me fazem refletir e questionar. A do Paulo Coelho postada por uma amiga no Facebook se enquadrou no segundo caso. Recentemente percebi que estou em uma fase questionadora e tomando o caminho do meio com certa regularidade. Não sendo mais ou menos, que mais ou menos não presta. Porém, não me deixando levar por extremos com tanta facilidade.
No caso dessa frase, por exemplo, claro que existem as questões físicas, que nos impedem de certas atitudes e atividades. Para nós, mulheres, então... O passar do tempo sempre pressionou um pouco mais, uma vez que a gente tem um relógio biológico que nos avisa que nossos óvulos vão chegar ao fim. E mais, a idade e os cabelos brancos tornam os homens mais charmosos (eu acho!) e as mulheres, não. Fato. Mulheres pintam o cabelo e as que os assumem, precisam prestar atenção em outros aspectos se não quiserem pertencer a ala da vovozinha.  

Porém, acredito, que enquanto há vontade, há tempo.Porque se há vontade, há vida e se há vida e vontade, certamente existem os meios necessários. Ou improvisa-se! Pode faltar coragem, talvez. Falo isso, porque tenho exemplo em casa. Depois que meu pai morreu, minha mãe começou a ter coragem para fazer coisas antes não tentadas. Da simplicidade, como dançar em festa de família, aos casos mais complexos para uma senhora de 78 anos, como andar de moto ou experimentar pela primeira vez na vida uma montanha russa (70 metros de queda a 124 km por hora). 

E posso te dizer? Isso foi só o começo! Minha terapeuta sempre me disse que "toda escolha é uma renúncia". Guardei essa frase para mim e acrescentei: "portanto, escolhas demandam coragem". Não é?

Se toda escolha é também uma renúncia; escolhas, portanto, demandam muita coragem!  (Bia Amorim)

Nélida Píñon em revista


Nélida e Susy Piñon em foto de Cadu Pilotto para Caras
http://caras.uol.com.br/decoracao/escritora-nelida-pinon-abre-sua-casa-e-fala-sobre-nao-formar-uma-familia#.VHXjivldWM4

Não conseguiria mesurar através de palavras - estas que amo e expresso com facilidade - a honra que tive ao ser recebida por Nélida Piñon em sua casa para conduzir essa matéria. O espaço disponibilizado não fez jus ao nosso encontro. Fato com o qual o jornalista tem mesmo que lidar: expectativa e realidade. Que mulher! Que história! Que educação e ternura no trato! E de uma articulação e inteligência que não engole o outro, mas o traz para perto. Não foi trabalho, foi lição particular de vida. Momentos  Com fotos de Cadu Pilotto e maquiagem de Duh Nunes na Caras desta semana.

Ninguém rouba



Os escritos, muitas vezes, acabam sendo formados a partir de peças de um quebra-cabeça que a vida, o dia, o momento oferece. É preciso estar atento e ter sensibilidade para captar o que parece bobagem e unir com alma as bobagens juntas para fazer florescer algo de bom. Hoje topei com essa frase do Gabriel García Márquez. Logo hoje, dia do aniversário do meu lindão, meu garoto, meu pai. Logo hoje, dia de Ação de Graças. Todos esses fragmentos juntos me fizeram muito bem. Sou grata a Deus por ter me dado mais de 30 anos ao lado de um pai incrível, sensível, carinhoso, inteligente. E o muito do que a gente viveu ninguém rouba. Enquanto eu viver, ele vai viver através das minha lembranças. E foram muitas, porque tive um pai aventureiro e companheiro. Figura! "Ficou" diabético para que meu fardo fosse menor. E assim como ele cuidou de mim, tenho orgulho de dizer que cuidei dele na mesma medida. Agora, tenho o prazer e a honra de agradecer a Deus por me fazer viver momentos com minha mãe que entrarão para a galeria dos inesquecíveis.

As pessoas não mudam?



Ainda custo a crer que isso seja 100% verdade. Teria que negar a fé redentora e transformadora na qual creio. Porém, acredito, que a mudança não é feita de fora para dentro, como a gente deseja, mas de dentro para fora, fruto de muito esforço, reflexão, atitude e impacto. Mudar, atitudes, hábitos, manias, seja o que for, requer de nós um esforço do tipo maior. Talvez seja um dos grandes desafios da existência. Tipo, uma coisa que parece simples: para mudar a nossa alimentação e adquirir hábitos saudáveis não demanda de nós um esforço constante? E para que o corpo compreenda que seu novo peso é o peso ideal também não requer um bom tempo abaixo do que era? Para falar do simples, porque sentimentos, caráter, hereditariedade são fatos muito, muito mais complexos. Mas, sim, passíveis de transformação vigilante. Os consultórios e terapeutas estão ai que não me deixam mentir. Poucos, no entanto, conseguem alterar suas neuroses e compulsões. Fato.

15.10.14

Dois meses da Nina hoje e um mês lá em casa


Dois meses da Nina hoje


O que já havia escrito sobre ela (a chegada) - Como já falei, tirando dois pintinhos (Pedro & Bino) que morreram antes de ganharem penas/asas, nunca tive bicho de estimação. A preocupação sempre foi a mesma: eles prendem a pessoa em casa e minha alma é de viajante. Prendem sim, porque já estou louca para voltar para casa e ficar com a Nina. Mas soltam também: sorrisos, ternura, carinho, cuidado, sentimento materno. Tudo que, de certa forma, eu guardava em mim, esperando a hora certa de ofertar. Nina, minha gatinha preta, chegou lá em casa muito desconfiada. Ficou cansada da viagem que fizemos entre a casa de sua mãe peluda, para o apartamento de sua mãe humana. Dormiu, sem sair da caixinha de sapato que chegou - com um paninho bem quentinho. Na madrugada, miou baixinho (desconfiada, tímida, não devia entender onde estava). Levantei e fui tirar ela de lá. Ela sabia sair, mas estava com medo. Achei que podia ser fome. Coloquei em frente ao pote de ração. Antes, ela percorreu todo o quarto e mesmo com um pouco de medo de mim, se sentiu confortável para comer. Brincamos. Meu gás acabou. Coloquei um travesseiro meu no chão e acordei com a minha mãe invadindo meu quarto para brincar com a "netinha". Ela estava aninhadinha no meu travesseiro. Levamos tudo para a cozinha, ela voltou a comer e beber água e de primeira, já usou sua caixa de areia para fazer um "cocozão". Achava estranho as mães de bebês (humanos) falarem e se preocuparem tanto com as fezes de seus filhotes. Já compreendo. Celebrei a "bostança" feita no lugar correto tal qual um gol! E antes de sair de casa para trabalhar, ela já me seguia pela casa. Não é preciso dizer que deixei meu coração lá, né? Liguei para saber no meio da tarde. Minha mãe disse que também saiu, mas a deixou dormindo, aninhada no meu travesseiro. Minha filha peluda me faz feliz.
 


Duas semanas depois... - Há duas semanas a minha vida mudou um pouco. E foi para melhor. Desde que a Nina chegou, durmo menos, mas com mais qualidade. Vi minha gatinha crescer, embora ela ainda não tenha nem dois meses. Gosto de observar suas manias e evolução. Adora a vassoura e brinca de morder a "mamãe", quando sente cócegas na barriguinha. Estou toda arranhada e estranhamente feliz com essas marcas, porque são marcas que me fizeram dar muitas gargalhadas. Só sai da cama, quando eu levanto. E enquanto eu tomo banho, leva a minha camiseta para o quarto. Para o canto dela, claro. Só dorme encostada em mim. Gosta muito de leitinho, mas parei de dar, porque li que faz mal. Dia desses, cheguei em casa e ela estava na mesa do computador. Subiu sozinha, escalando os fios por trás da CPU. Ai ai ai. Já está dando grandes saltos para o seu tamanho. E sabe quando estou chamando por ela. "Cadê Nininha de mamãe?" Ronrona muito com meus carinhos e gosta de me lamber e mordiscar o meu nariz. Dia desses falei, "Nina, cadê a sua fita para a gente brincar?". Ela correu para cima da fita, que estava escondida. É magrela e me parece que não gosta muito da ração, mas come. Escolheu uma cadeira como dela. Minha mãe sentou e ela foi lá reclamar. Juro. Sentou em cima do livro que minha mãe olhava. Rimos. Água? Nunca a do potinho e sempre a que sobra no box. Como agir? Tive que segurar com mais força para passar o remedinho de pulga e quase morri do coração. Imagina quando chegar o tempo das vacinas? E a castração? Aff! Eu sou carinhosa e mimo mesmo quem me "É" amor. Talvez tenha vindo a esse mundo para espalhar um pouco de amor, que às vezes, em mim transborda. Não é fácil. O desafio é não ser hipersensível ao meu próprio sentir.


Três semanas em casa! - Era cinza do olho azul, ficou pretinha com mechas brancas e o olho esta esverdeando. Difícil de registrar, porque o flash a faz fechar os olhinhos. Passa boa parte do dia assim: dormindo. Ou me arranhando. Ou me lambendo. Ou ronronando com tanto carinho. Nina é meu tema sim! Minha alegria. Das raras nesses últimos dias. Fico especialmente feliz em ver que minha mãe também esta totalmente apaixonada por ela. Chama pela gata o dia todo e brincam juntas, quando dá. Vejo minha velhinha de 78 anos sentada no chão, às gargalhadas! Quando chegou, dormia no meu peito e sobrava espaço. Prestes a completar dois meses, ela ainda adora dormir assim, mas já preenche todo o espaço. Pior quando ela não couber mais e ainda assim tentar. Claro que vamos dar um jeito, porque esse chamego, precedido de um ronronar tão gostosinho, nao tem preço.
 

14.10.14

'a cabeça não aguenta se eu parar'

Muito. Muito tempo sem aparecer por aqui. Eu sei. Faço vocês perderem o ritmo e o BibideBicicleta, musculatura "digital". Mas estou sempre revisitando os versos de Raul Seixas: "Não diga que a canção está perdida /Tenha fé em Deus, tenha fé na vida /Tente outra vez/Beba, pois a água viva ainda está na fonte / Você tem dois pés para cruzar a ponte/Nada acabou, não não, não, não /Tente /Levante sua mão sedenta e recomece a andar/ Não pense que a cabeça aguenta se você parar, não não não não"...

Voltei, porque achei um tempinho entre os dois turnos da eleição. Estou mergulhada na campanha do Rio. Voltei, porque os amigos não devem mais aguentar meus relatos sobre a minha gatinha (aqui, lê quem quer, não é verdade?). Voltei, porque sempre volto. Porque 'a cabeça não aguenta se eu parar'. Voltei, porque tenho amor às letras, ao BibideBicicleta, a quem me lê - eventualmente ou não - e principalmente, porque existem aqueles que gostam de interagir, deixando um recadinho. Esses me fazem feliz. Amo.

Então, voltei e achei um recadinho tãooooooo fofo de uma leitora anônima, falando sobre a chegada da minha gatinha! ADOREI. E percebi que eu nada contei da chegada dela, é fêmea, por aqui. Porta aberta para o meu assunto preferido do momento: Nina.

Pois é, o nome ficou Nina e ela não é cinza, é pretinha com umas pequenas mechas brancas. O olho azul está esverdeando e eu não conheço criaturinha mais linda que a minha filha. Amanhã ela faz dois meses! Quase um mês lá em casa e posso dizer que não há amor maior! Amanhã, no dia do mês-aniversário, conto mais sobre ela.    

4.9.14

Graças a Deus me chamo Beatriz!


Eu curtia visitar a minha avó em Minas, porque no quintal da casa dela tinha muitos bichos. Gato, cachorro e papagaio sempre. Muitos gatos, que não eram bem dela, mas viviam ali e eram por ela cuidados. Sei lá, mais de 10 numa época. E a minha diversão era correr atrás dele ao redor da casa. Ariscos, não se deixavam acariciar. Cachorro lembro bem de poucos. Sebastião, um mestiço de Beagle, era meu preferido. Acho que de todos os netos e da vovó também.

Meus pais NUNCA quiseram ter bichos. Mesmo quando a gente tinha quintal. Um dia me deram dois pintinhos de feira - Pedro e Bino - que morreram antes de virarem galinhos. Como quase sempre acontece com esses bichinhos de feira de filhote. Acho que até por isso permitiram a morada de Pedro e Bino lá em casa. Bino morreu de doença. Pedro, afogado. Chorei pelos dois. Comigo não poderia ser diferente.


Depois veio uma ratinha de laboratório branca chamada Poliana, que era de responsabilidade do meu irmão. Minha mãe não tinha nem coragem de olhar para a bicha. Eu, andava com ela nos ombros. Ela morreu de tumor e eu "morri" de chorar. Enterramos aos pés de uma amendoeira na rua em que morávamos. Preferi não ver, mas fui aprendendo sobre perdas e ganhos. Depois mais nada, nem passarinho. Nem montar o insetário para a aula de biologia pude fazer em casa. Nada. Nem se cogitava a possibilidade de um pet.
 
Há pouco tempo, mamãe vem falando de gatinhos. Minha prima tem, meu primo tem, nossa vizinha tem, nossa faxineira tem. Eu, só franzia o cenho ao ouvi-la falar sobre isso. Ainda não imagino um gato pisando no tapete que ela não me deixa pisar... Até que minha amiga do trabalho pegou uma gatinha de rua sem saber que ela estava "grávida". Como ela já tem vários gatos e cachorros, não poderia manter os gatinhos com ela. A ninhada veio com um de cada cor e eu me apaixonei pelo cinza da foto! Só mostrei a foto para a mamãe e ela me disse:
 
- "Quando vai trazer a Titica aqui pra casa?". 
- "Pô, mãe, Titica é cocô, vai chamar o gato assim?" 
- "Titiquinha é um nome bonitinho! Então, Thomas"

- "Ai vão dizer: Thomas no **"
- "Ih, nem pensei nisso!"
- "Vamos colocar Miguel?"
- "Prefiro Xexéu!"  

Não, definitivamente Titica não vai rolar. Xexéu também está complicado. Não sei se é macho ou fêmea ainda. Se for fêmea, pode ser Valentina ou apenas Tina. Sei que depois de desmamar, vou ter que aprender a cuidar de um gatinho. 


Sugestões para o nome gente? Porque sinceramente: a criatividade de mommy me assusta! Graças a Deus me chamo Beatriz! HAHAHHAHAHAHAHAHA

2.9.14

29.8.14

O ponto de não-retorno

Um relato muito pessoal e em construção:
 
Antes
 
Não aconteceu de um dia para outro. Porém, as etapas foram bem definidas. Fui morar fora pesando 50 kg e voltei com 10 kg a mais na bagagem corpórea. Desinchei, mas não emagreci. Um ano fora e ninguém falava de saudade, apenas dos quilos extras. Coloquei um piercing, novidade na época, e tentava desviar o foco para o novo artefato, mas nada resolvia. Estar gorda era sinal de que me deixei destruir durante a viagem. Demorou um tempo até que as pessoas se acostumassem ao meu corpo. Eu já tinha comprado roupas novas, guardei no fundo do armário as que não serviam. Era como se o corpo não fosse meu, mas objeto de apreciação alheia.

Aliás, desde que nasci apenas uma vez perdi peso. Foi na época do vestibular, quando estudava de domingo a domingo: eu tinha que entrar para a faculdade pública! Foco e meta. Faca na caveira. Todos os meus horários ficaram regrados, de comer, de dormir, de estudar, de respirar. Pouco dinheiro para ir ao restaurante todo dia. Escolha consciente no prato para ficar "nutrida". Fui de 42 para 36. Voltei da América, anos e anos depois, a bordo do 42/44, mas com retenção de líquido até na lágrima! Uma coisa. Fiz esse arco de 36 para 42/44 - sem quadril e nem glúteos fartos! rs  

A segunda etapa se estabeleceu quando entrei em depressão. Não perdi peso, nunca perdi depois daquela única vez, e o 44 se estabeleceu de vez na minha vida. Há dois anos, ou menos, num curto período de tempo, 6 meses, engordei 18kg. Numa talagada só. O alarme já havia soado há muito tempo. Já estava na academia, malhando com regularidade e seriedade. Três meses depois de malhar todos os dias da semana, perdi 200gr. Só. Basicamente uma ida ao banheiro. Não podia ser normal. Sou diabética, já não usava açúcar. Também tive um problema de saúde que me obrigou a ficar de 10 dias só me alimentando de líquido. Fiquei 30 e, adivinha? Engordei. O ponteiro da balança subia e minha autoestima baixava em progressões nunca antes vistas por mim.

Se eu comia muito? Não! Se eu beliscava? Não! Mas estava comendo errado. O meu corpo já não me pertencia. Todo mundo notava. Eu notava. Fugi das fotos. Fugi dos eventos. Fugi das pessoas. Fugi do trabalho. Fugi de mim. Novo alarme. Não tinha mais controle sobre meu corpo, que obviamente não estava mais funcionando direito. E você não fez nada para mudar isso? Nem a minha endocrinologista compreendia a engorda, porque meus exames de sangue estavam normais para a questão. Fazia ginástica. Comia de três em três horas. Nenhuma roupa mais cabia ou ficava legal. Nessa época, tive que comprar uma bermuda e só servia a 48. Coloquei de volta no cabide e comecei a buscar outro tipo de ajuda. Não porque tinha vergonha de ser gorda, mas porque meu corpo não estava comportando os quilos a mais. A Coluna já rangia nessa época. Dor. E porque não tinha estrutura para estar tantos quilos acima: uns 25 a 30. Fugi da balança também. 

Fazendo uma matéria, cheguei ao Dr. Tércio Rocha. Ele sacou na hora que eu tinha um problema de tireoide. Levei meus últimos exames de sangue: Bingo! Não estava no sangue, mas estava quase. Os outros sintomas eram claros: cabelo caindo, engorda sem motivo, 20 horas de sono e ainda tinha sono, irritabilidade, rosto e pescoço deformados... Descobri que existem falsos amigos da dieta, tipo o tal biscoito água e sal, barrinha de cereal e afins. Eu estava com intolerância ao glúten. Cortei farinha branca e lactose. Bebi o dobro de água. No primeiro mês, perdi 5kg! E depois fui de quilo em quilo eliminando o que não me pertencia. Não queria virar maromba ou uma daquelas meninas que dá dicas no Instagram (nada contra elas, adoro, mas não era a meta!), mas depois de perder 15kg até agora, eu entendi o motivo delas gostarem tanto de tirar foto!

Meu corpo voltou a funcionar! O ponteiro da autoestima está subindo como foguete. Continuo com restrições, mas não passo fome. Parei de malhar, mas se voltar, vou potencializar meus ganhos, eu sei! Meu corpo está funcionando e isso me emociona, porque durante muito tempo cada quilo a mais no meu corpo me foi jogado e julgado como culpa de um relapso meu, como preguiça, falta de vontade, relaxo. Culpa, culpa, culpa. Pior, há quem pense que o gordo não é legal. Para! Quem acusa não percebe que por trás de um corpo – seja ela qual e como for – existe uma pessoa. Que sabe. Que tem sentimentos. E que talvez não encontre o ponto de não-retorno, a mola mestra para mudar. Porque além do peso dos seus quilos, há quem carregue o peso da culpa e o peso do julgamento de terceiros.

Hoje

Não cheguei lá! Falta e muito, a meu ver! Sempre vai faltar, não porque eu quero ser esquelética, mas porque quero ser o resultado dos frutos do meu esforço. Rumo aos 5kg finais! Se eu consegui, você consegue. Acredita!

27.8.14

Tudo era calma. Alma.

Herdei dos meus pais essa mania de “puxar papo”. Os dois tinham esse hábito, meus irmãos também têm. Cada um do seu jeito. O mais velho é piadista; o do meio, atencioso. Eu? Gosto de um papinho mesmo. Curiosidade sobre a história que a pessoa tem a dizer, o que me rende bastante material vivo para a escrita, dentre outras coisas.

No novo trabalho já conversei com muita gente de outros setores. Os do setor de Serviço, principalmente. Adoro! Outro dia, entrei no banheiro e tinha uma reunião delas. Reunião mesmo. Um círculo de mulheres uniformizadas contando seus casos, suas dores. Um grupo de apoio se formou e se desfez assim que entrei. Fiquei envergonhada de ter aparentemente "interrompido" aquele momento. Bem poderia ser uma oração. Quem sabe? Tudo bem que não era a hora (expediente) e nem lugar (banheiro). Mas tenho pra mim que as trocas verdadeiras podem ocorrer sem horário ou local determinado.

Depois que resolvi a questão que me levava até ali, vi que ficou apenas a responsável pelo setor. Perguntei se estava tudo bem e ela me contou:
“Tenho um filhinho de quase dois anos que passou mal de bronquite de madrugada. Há dois dias que não durmo, porque ele tem falta de ar. Agasalhei meu filho e levei para o hospital. A médica disse que era exagero meu, que não era bronquite e era uma irresponsabilidade eu sair naquele frio com a criança. O menino tem falta de ar direto, já estava ficando roxinho, não comia... Fui com ele para o hospital e disse à médica que não seria maluca de sair com a criança passando mal, sem estar agasalhada. Ela só receitou descongestionante e fui para casa”.
Vocês podem imaginar meu coração derretendo nessa hora, não é?

Fiquei tão comovida – e passei isso para ela – que ela me perguntou se eu tinha um bebezinho também. Sem graça, talvez por ter demonstrado amor demais em um tempo de desamor... Disse apenas que gostava muito de crianças, mas que não era mãe. Ela me contou outra história:
“Não fica triste. Lá na minha igreja, todas as minhas amigas foram mãe cedo. Eu com 25 anos, não era mãe, mas desejava muito. Só aconteceu agora e eu tenho 35 anos. O nosso tempo, não é o tempo de Deus. Um dia você será mãe, acredita!”.
Se eu vou ser mãe de verdade, só Deus mesmo para saber... Mas o que mais gostei de ouvir dela foi: “O nosso tempo não é o tempo de Deus”. Vivemos dias tão corridos, que anda difícil até arrumar uma horinha para comer sossegadamente, ligar para um amigo pra nada, pensar em livre devaneio! Nesse turbilhão de acontecimentos, a gente quer correr para realizar os nossos sonhos e cada um dos sonhos tem seu tempo certo, exato, específico para acontecer na vida. Na correria do cotidiano, atropelamos nossa história, nossos sentimentos, o curso certo do rio em que flui a nossa existência.
Dois dias depois, novo encontro. Ela ainda não havia dormido, mas o bebê estava bem. Trocamos sorrisos. Ela estava até cantando. E eu sabia a canção! Já havia cantado na igreja. Num arranjo desarranjado – sem trocadilhos com o local, afinal, era o banheiro – nós duas começamos a cantar juntas. Surreal, mas divino: Mesmo sem merecer, pecador, o mais miserável dos homens que sou; me envolves com seu amor e por isso, eu sou mais feliz”. Saí dali como se tivesse falado com Deus. Tudo era calma. Alma. Talvez tenha mesmo falado com Deus e também com um de seus anjos.