
Ser politicamente correto hoje em dia é um saco! Gostava mais do tempo em que falar das coisas com carinho e naturalidade não ofendiam ninguém. A nenhuma das partes, aliás. Hoje, há que se ter cuidado com os mínimos detalhes. Por exemplo, ia começar o post de hoje falando em como eu amo estar entre os velhinhos. Tenho medo de usar essa palavra e ofender a turma da Terceira Idade, que já não gosta desse termo e prefere ser tratada como Melhor Idade. Meu pai diz que tem DNA – Data de Nascimento Avançada. Adoro quando ele diz isso como se tirasse onda com a vida. Então, em homenagem ao homem que mais amo, vou ficar aplicar o termo DNA no meu texto. Com todo respeito aos demais, aviso!
Cresci entre os DNAs. Quando fui trabalhar com celebridade, invariavelmente todas as matérias “deles” caiam misteriosamente “no meu colo”. E eu nunca reclamava. Assim, acabei formando um círculo tão incrível, tão cheio de vida e histórias para contar, com tanta energia e entusiasmo, que fiquei com pena do que tem preconceito com a faixa etária. Eu adoro!
Essa semana voltei a ter contato com tanta gente boa! Pessoas que conseguiram passar bem pela vida, transformando seus cabelos brancos em status de experiência e a experiência na progressão da doçura do existir. Talvez, e aí é apenas talvez mesmo, só chegue carrancudo à essa etapa, quem não cultivou direito suas fases de desenvolvimento; que não viveu em liberdade, mas em libertinagem; que não experimentou, sem deixa-se dominar; quem não arriscou, aplicando uma boa dose de bom-senso e aventura. Quero falar de adoráveis, mas o texto já está tão grande...vamos logo a eles:
* Arnaldo Niskier
Não me lembro a primeira vez que estive com ele e dona Ruth, sua mulher. Mas lembro bem que as pessoas se referiam à ele como o professor e achei que aquele título lhe caía tão bem. Em nosso terceiro encontro ele olhou para mim e disse:
AN: Não precisa se apresentar, eu sei quem você é!
E assim, com a boa intimidade dos quase amigos, passamos a nos tratar em nossos rápidos encontros. E ele sabe quem sou até hoje. Descobri que ele é torcedor fanático do América. Não podia ser diferente, não acha? Muito estiloso!
Em 1996 ela tornou-se a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. Conheci a Nélida pela televisão, no Programa do Jô e seu nome forte ficou registrado na minha memória. Você não fala Nélida Piñon impunemente! É um nome com cerimonial! Não é como dizer Maria Padilha, um cacho de bananas, depois da meia-noite ou João das couves.
A primeira vez que a vi pessoalmente fiquei meio hipnotizada. Lembro de ter pensado: "tão pequenininha e tão gigante em pensamentos e expressões". Gosto de duas frases dela:
“Todo mundo diz que sou uma mulher de grande imaginação, mas também adoro administrar a realidade, o concreto” e “Desde menina percebi que poderia ser usuária do saber de todo mundo, se me empenhasse para isso”.Um dia, liguei para ela para marcar uma matéria que nunca pude fazer. Disse a ela:
Bibi: Mas a senhora tem que mostrar a casa toda, combinado?
Nélida: Eu mostro a sala, o escritório e a cozinha, mas o quarto não! Hoje em dias as pessoas perderam, como direi? A compostura...
Bibi: É, as pessoas perderam o recato.
Nélida: Ah, agora você me fez muito feliz! Recato, era essa a palavra que eu queria usar. Você me superou e olha que eu sou muito boa com as palavras!
Bibi: Que isso dona Nélida!? Assim você me deixa com vergonha!
Nélida: Não fique, estou bem impressionada!
Não preciso dizer que Recato virou meu sobrenome, não em sua essência, é claro, mas na sua sonoridade! Bibi Recato de Bicicleta.
* Luis Fernando Veríssimo
Sempre ouvi falar nele, mas conheci primeiro as letras de seu pai. Os livros do Érico eram adotados na minha escola. Um dia estive frente à frente com a lenda. Minha missão era entrevistá-lo durante o lançamento de seu livro. Fui me aproximando bem lentamente, assim como quem estuda a presa. Mas se a presa é um gigante da literatura, você se sente um mísero mosquitinho, tentando fazer barulho. A assessora me manda sentar ao lado dele, enquanto ele assinava os livros. Não lembro que lugar era aquele, mas não tinha muita nobreza, a mesa era uma daquelas de plástico. O seu publico parecia em êxtase, sem muito falar, só a olhar.
Sentar ao lado dele era uma tortura para mim! Não porque eu não quisesse, mas porque queria muito e me faltavam as palavras. Ele me olhou rapidamente e desviou o olhar. Comecei as perguntas e vi que ele tinha muita dificuldade para falar, não para se expressar. Num dado momento, alguém da fila o elogia e ele parece querer sumir dali. Percebi tudo: o gênio era tímido! Muito tímido! Estava mais nervoso que eu! Lembro de rir e comentar com ele.
Bibi: Você parece incomodado de estar aqui, né? De receber tantos elogios...
LFV: Sou muito tímido. Se pudesse, só escreveria, pulava essa parte de estar frente à frente com o público. Fico encabulado.
Não é fofo?
Da segunda vez que o encontrei, fui abordá-lo com mais coragem e mostrando uma intimidade que a gente não tinha. E esse ar deu confiança a ele e a mim. Lembro de ter perguntado: "o que te falta?". E ele: "um neto". Foi em 2004.
Essa semana descobri que ele finalmente está para realizar seu antigo sonho! Em abril LFV será avô de uma menina! Viva o vovô!
2 comentários:
Cavem a cova, por eu já estou no meio da queda, dura, preta e coberta de lantejoulas!!! Só existe uma pessoa entre mim e o LFV!!!!!!!!!!! Puf, morri!
Fantástico como você consegue fazer estas "intocáveis" celebridades parecerem tão possíveis!!!...
Combinamos assim: Da próxima vez que você for entrevistar um destes "monstros"... leva uma foto minha e diz que eu existo, tá?!... rsrsrsrs
Bjussssss
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