Crônica – “Costurando a vida”
Por Bibi de Bicicleta
Tem certos dias que a gente se pega pensando em um assunto que não tem
nada a ver com o que realizamos, vimos ou pretendemos fazer no dia. Hoje estou
pensando em colcha de retalhos. Mas acredito que para tudo existe uma história,
uma explicação, que pode servir como base para explicar o pensamento inicial. Caso
não tenha, a gente credita como o bom e velho devaneio mesmo!
A primeira colcha de retalhos que vi na vida estava na minha própria casa. Foi
feita pela minha avó e como todas as coisas feitas por vovós, ela tinha cara e
consistência de carinho. Não convivi muito com a minha avó, por isso mesmo,
cada uma de suas histórias teve peso extra para mim. Foi uma guerreira, sem
dúvida, mas acima de tudo uma mulher cheia de contradições. Como a maioria de
nós se apresenta em algum momento da vida.
Ela fez aquela colcha para os meus pais usarem, mas um dia ela se tornou
minha através de um afetuoso afano de criança que adulto não liga. Achava
interessante ficar olhando a combinação de seus recortes, a linha grossa,
vermelha, costurada num ziguezague xadrez, que passava por cima de cada junção.
Não tinha forro. Usei até rasgar. Aliás, até que se desfizesse, porque até mesmo
cheia de buracos ela continuava sobre a minha cama.
Hoje percebo que a vida também é como uma colcha de retalhos. É a metáfora da
nossa própria vida: somos feitos de muitas partes e estas formam o todo. Somos
costurados às coisas, fatos e pessoas através de linhas tão finas, muitas quase
imperceptíveis. Cada fração de momento é de um tamanho, padrão, textura e cor.
Cada qual com sua importância e peso. Somos feitos de muitos pedaços, de muitas
matérias. Somos a união da lembrança daquilo que se foi, esperando pelo próximo
pedaço, a esperança daquilo que virá a ser. Somos o costureiro da nossa própria
história, responsáveis por pontos que ferem, marcam, mas que também alegram e
deixam coloridos registros.
Vovó não era dada a demonstrações de carinho, mas se preocupou em deixar
esse retalho construtivo que me acompanhou durante tanto tempo. E pequenos
retalhos têm o poder de te tirar da inércia dos sentimentos, do conformismo da
falta de conexões. Somos ligados ao passado pela força do presente que vivemos
e do futuro que plantamos para nós. Minha avó teve dez filhos e um sem número
de netos e bisnetos. No fim da vida, já não se lembrava do meu nome e me
chamava apenas de menina. Tem horas que penso que ainda sou aquela menina,
costurando a sua própria colcha de retalhos.
* conto reeditado a apreciado com louvor pela Professora de Narrativa na faculdade....