9.3.15

As pessoas não gostam de falar de morte


No geral as pessoas não gostam de falar de morte. Não estou citando a maneira mórbida de encarar a questão, mas sob o ponto de vista de que é algo natural, que a gente nunca está preparado para enfrentar - nem digo a nossa própria, mas daqueles que amamos -, mas que faz parte da história de todos nós. Perdi meu primo ontem (5/03). No susto. Aos 62 anos, durante um cruzeiro em águas do Uruguai. Ele realizava um sonho. O último. Estava feliz.

Lembrei do meu pai. Não só da sua morte, mas da maneira como ele teve que lidar com a partida do pai desse meu primo, seu irmão mais velho (meu tio, portanto). Papai era de contar as mesmas histórias. Falava muito, sobre o mesmo. No mais, era de poucas e boas palavras. Pontual. Quando Tio Enir morreu, ele pegou um bandolim no fundo do armário, velho, que quase nunca saia de lá, envolto em plástico e tocou. Um som vivo. Forte. Um lamento. Sua despedida. Lírica. Lúdica. Sincera. Uma homenagem sem plateia. Era ele e seu bandolim a sor no meio de uma noite triste. Arrumou um jeito de fazer a dor caber para cessar. 

Achei que com a partida do meu pai, minhas histórias sobre ele fossem parar. Mas até depois de partir, meu pai me ensina. Está vivo dentro de mim, através de cada lição que consegui captar. E outras que vão despertando - feito essa. Então pensei em como seria a minha despedida de longe do Toninho. Como fazer a dor caber para cessar? Como prestar a minha homenagem em uma despedida que tivesse significância para mim? Somos individualistas na hora de elaborar a perda, embora tudo o que a gente mais deseja é abraçar os mais chegados: viúva, filhas, irmãos e mãe. Como se esse calor de um abraço ajudasse a preencher um espaço aparentemente vazio. Depois é que a gente percebe que esse espaço sempre esteve e estará preenchido. É só o susto da ruptura. Quem por nós é amado não morre, transcende. 

Faço, então, da minha reflexão a música que papai começou. E jogo no ar. Faço da minha arte de usar as palavras, o meu memorial. Talvez para sempre use desse artifício, um predicado para registro próprio do inevitável, a fim de ressignificar esse novo espaço aparentemente vazio. Para trazer para dentro a minha família amada, que se mostrou presente e tão unida na dor, assim como faz na alegria. E como faz! Que bom que não me sinto sozinha. Que bom que a morte não é um fim em si mesma. Nem vazio. Apenas uma oportunidade. Cada qual decide de que.

2 comentários:

Val disse...

Bia, VOLTEIIII!!!!!!!!!!

Saudades de vc e tantas coisas pra contar...

Nos vemos numa dessas pedaladas virtuais!!

Bjs,

Val

Thais Xavier disse...

Que bom que voltou a escrever, prima !! Estava com saudades... e como sempre, escrevendo verdadeiras pérolas !! Parabéns !!! Que Deus continue a te inspirar para que possas nos inspirar também !!! bjão