15.3.10

Doutor Rogério Oliveira


Queria deixar uma informação aqui registrada para mim. Para a posteridade dos meus dias únicos. Para o dia em que eu resolva voltar no tempo e ler as minhas reminiscências...


Aos cinco anos eu descobri que era Diabética. O que todo mundo julgou que me faria mais fraca, me tornou mais forte. E esse é o fato mais verdadeiro da minha vida e formação. As insulinas não foram problema. Nunca tive reações extremas a nada. Eu era até mais saudável que a minha amiga de infância que tinha bronquite. Ela não podia brincar de quase nada, usava bombinha e tomava remédios. Eu só não podia comer doces e usava insulina. Às vezes ia ao médico. Fui mais negligenciada que atendida.

Aos dezenove anos essa rotina de negligência mudou. Através de uma colega de faculdade, também Diabética, conheci o médico que revolucionou o meu tratamento e a minha vida. Na verdade, ele talvez tenha salvado a minha vida. Ele, um entusiasta do bem viver. Ele também Diabético há mais de 50 anos, quando o conheci. Ele, que conseguiu alterar o meu esquema e fazer com que eu tivesse orgulho de ser Diabética. Orgulho sim. Um orgulho mais doce. Uma compreensão de que todo obstáculo pode e deve ser superado. Basta querer. E esse desejo tem que nascer em nós como o sol nasce a cada manhã, mesmo que a gente não o consiga ver por entre nuvens escuras. Sempre existe a certeza de que ele está lá, ele nasceu para o novo dia.

Meu médico conseguiu bater a impressionante marca de ter Diabetes há mais de 70 anos sem nunca ter experimentado as complicações da doença. Andava de moto. Namorava uma moça 30 anos mais nova. Fazia em si os testes com os novos aparatos tecnológicos para oferecer certezas a seus clientes/amigos/parceiros. Escreveu livros. Vendeu uma parte das obras de arte que foi comprando ao longo de uma vida para financiar as pesquisas com células-tronco. Acreditava na cura, mas nunca deixou de dizer: "o Diabetes só me trouxe coisas boas".

Eu achava que ele seria para sempre... Mas ele deixou esse mundo justamente no dia do meu aniversário. Soube disso ontem e fiquei muito abalada. Lá se foi o paladino da Diabetologia. O cara que acreditava em vida e não em semi-vida, em subterfúgios, em tapa-buracos. O cara que fez da vida dele um grande laboratório da emoção, das possibilidades, da camaradagem com os seus, da busca pela verdade, que desafiou paradigmas com sua irreverência e teimosia. No dia em que nos conhecemos eu chorei muito, porque via ali um caminho novo que eu precisava seguir e tive medo. Nesse mesmo dia, nós saímos para jantar. Ele tomou a insulina na minha frente, para mostrar que aquilo o definia, mas não o restringia. Nunca mais deixei de tomar a insulina onde quer que eu estivesse, como se fosse um hábito, como pingar colírio. E na verdade o é. Quem tem medo, receio ou sente vergonha verá em mim a naturalidade da vida. Orgulho Diabético. Orgulho do meu médico: Doutor Rogério Oliveira.

13 comentários:

Laura disse...

Que lindo Bibi..........Eu tenho reistência a insulina,vivo na dieta e na metformina.Sábado foi a vez da minha caçulinha repetir uma curva glcêmica,ela faz 13 anos agora em abril.A segunda tb deu alterada,como "pré-diabetes",vou pedir para ela ler esse texto aqui.Esta semana voltamos na endocrino,espero que ela possa ir levando como eu vou,com direito a enfiar o pé na jaca à vzs........É a vida,e ela segue.beijos para vc!

Bibi disse...

Laura: eu tenho resistência à metformina. Pena, porque é um remédio maravilhoso (e ajuda a emagrecer, viu?!). Incentiva a sua filha a se gostar como ela é. Nada define a gente a não ser nós mesmos. Tenho uma amiga que ficou diabética agora e ela está indo superbem. A vida fica mais saudável e as possibilidades são muitas, basta se aceitar, se querer, se cuidar, se amar. Somos mais doces, só isso! :)

joseluis disse...

como médico, se eu fosse ele, me sentiria como aquela primeira professora

Helga disse...

Adorei a história do Dr. Rogério, seres humanos especiais que cruzam a vida da gente na hora em que mais precisamos, e nos marcam para sempre.
Eu tenho um médico assim, meu otoneurologista, ele me tranquiliza só de me olhar.
Beijão, Bibi.

Bibi disse...

Zé: você como médico devia se sentor orgulhoso de ser meio assim.

Helga: Gosto de pessoas que marcam, que deixam certezas em sua passagem, que vão além da intenção...
O que é otoneurologista? Adoro aprender...

PJ disse...

Cara colega,
Adorei a sensibilidade deste seu "doce" texto. Lindo e inspirado. Parabéns e que sorte a sua de ter encontrado akguém como o Dr. Rogério.
Abcs
PJ

J25 disse...

Pessoas assim marca a nossa vida (no caso a sua) As vezes penso são anjos que podemos ver e compartilhar.
Muitas vezes sinto que a vida NÃO vale apena; ai, com historias de vida como essa que vejo que ela pode vale sim apena.
Emocionei de verdade. São pessoas assim que nos faz sentir diferentes e felizes.

Bibi disse...

Opa PC! Sumidão, mas que bom que voltou! Cara colega? De Comunicação, de blog ou de Diabetes? rs Sorte minha e burrice minha, porque acho que aproveitei muito pouco... Passa rápido, certas coisas passam rápido demais; outras demorammmmmm
Bom ler você!

J25: Querido, as pessoas cercam deixam marcas como bons perfumes, bons sonhos, belas lembranças. Morri de medo quando o conheci, mas enfrentei a situação com garra. Quando nos encontramos, eu já tinha Diabetes há 15 anos, uma debutante de açúcar... Mas foi como se tivesse ali um novo começo. Eu sempre preciso de novos começos e que bom que posso recomeçar mais forte, mais segura, mais preparada. Muitas vezes me emociono ao escrever e sempre me emociono ao ler vocês.

Enfim... disse...

Bibi, que texto lindo. Linda homenagem. Venho de uma família de diabéticos. Sempre tive muito receio porque conheço o lado sequelante da doença. Soube que vc era diabética há pouco tempo, quando sumiu temporariamente a sua bolsa com insulina. Depois, vi vários posts aqui.Acho muito legal você explicar, comentar e levantar a bandeira de que dá para ter uma vida normal. Você é a diabética mais doce que eu conheço. Beijos.

Isabela Campoi, disse...

... linda homenagem: sem palavras!

Helga disse...

Bibi, otoneurologista é uma especialidade da otorrinolaringologia (afeee!), que cuida de doenças do ouvido que têm origem neurológica.
Eu tenho uma doença que chama-se Síndrome de Menière, que causa zumbidos nos ouvidos, crises intensas de labirintite e perda de audição progressiva. É uma doença otoneurológica, daí a presença do meu otoneurologista.
beijão, lindo dia pra vc

Saulo disse...

Vc não tem idéia do quanto este seu texto me emocionou... Me lembrei de nossa infância, de como todos "temiam" exacerbadamente pela sua saúde... Coisas que eu vivo também... obrigado, te amo!

Bibi disse...

Lu: A vida tem um lado sequelante. Quantas vezes a gente não machuca o coração e fica cheio de receios para abri-lo outra vez? Ou para dar chances para a vida por um sem números de motivos, poluindo a mente e maltratando todo o resto? Somos sequelantes o tempo inteiro conosco e com os outros. Receio é deixar de viver, deixar de amar, deixar de sonhar. Isso me machuca muito... Não queria levantar bandeiras, querida amiga, porque não me acho mesmo exemplo de nada bem relação a ser Diabética. Sou uma afortunada e uma mulher que tem esperança. E também acho que somos todos um bando de diferentes que lutam para parecer iguais, quando a beleza está em ser especial... Não é?

Isabela: Obrigada, obrigada... Hoje foi a Missa de Sétimo Dia. Não fui, mas como choveu cântaros por aqui, poso dizer que a cidade tb chorou.

Helga: como eu te falei: adoro aprender e você me ensinou muito! Gosto de saber que existem pessoas para as quais eu apenas olhar sinto alívio! You go girl!

Saulo: Só soube desse temor familiar através de você há muito e muito tempo atrás. Para mim, ninguém ligava muito. Só havia susto. Viver é tocar para frente, não é? Então vamos embora!