4.3.10

- Estou indo, não se atrase!


Ele me ligou no fim da manhã.
O 'oi' foi o habitual.
Mas havia certa urgência em passar logo para o assunto do dia.
Ele me convidou para almoçar.
Disse que ia me esperar em um ponto de encontro bem pertinho do meu trabalho.
Não em frente. Mas bem pertinho.
Não era o meio do caminho.
Ele andou muito mais.
Sem problemas, já que no Rio de Janeiro não fazia sol e nem chuva.
Estava aquele clima nublado, propício para uma pequena e agradável caminhada.
Antes de sair ele me avisa:

- Estou indo, não se atrase!

Assim o fiz e foi a conta certa.
Chegamos praticamente juntos, mas ficamos do lado oposto da calçada.
Engraçado ver aquele par de olhos protegidos por lentes escuras me observando.
Eu também usava meu maxxi sunglass comprado em NY.
Aliás, todo o look do dia foi trazido da Big Apple.
Só agora eu notei.
Estava toda de preto.
Ele também.
Um casaco de malha colado ao corpo que evidenciava a boa forma.
Não estava marombado, mas tinha tudo no lugar.
Caminhamos pelas ruas antigas do Rio.
Conversando e nos provocando com comentários engraçados.
Ele escolheu o restaurante.
Comemos sem deixar o assunto morrer.
Ele me convidou para um show no outro fim de semana.
Eu disse:

- Não!

E não se falou mais nisso.
A paz reinava.
E a liberdade de escolha também.
Tomamos café num balcãozinho que fica na parte de baixo do restaurante.
Claro que eu estava me sentindo em uma daquelas histórias de Machado de Assis, que amo.
Ele ainda optou pelo açúcar mascavo.
- Ora, ora! - Pensei eu, em silêncio, enquanto saboreava aquele café forte, encorpado, cheio de aroma e sabor. A nota destoante ficou por conta do adoçante que eu usei. Química!

Após o café, ele ainda tinha uma surpresa.
Caminhamos pelas vielas de paralelepípedo, por onde carros não passavam.
A volta ao passado - da maneira como eu o imagino - era cada vez mais real.
Ou propícia à minha fantasia.
Chegamos a um largo antigo.
Uma praça. Prédios de época.
Gente caminhando para lá e para cá desordenadamente. Uma pressa...
Nós caminhávamos sem pressa.
Uma leveza de existir.
Ele me levou a uma confeitaria também antiga.
Um prédio histórico.
Mesinhas dispostas em uma ambiente que cultiva a arquitetura de outrora como marco da resistência de uma bela época que não quer se deixar morrer.
Pedimos a sobremesa.
Todos doces coloniais. Exclusivos e artesanais.
Deliciosos.
A sobremesa que deixa a boca mais doce, a vida mais leve...
Ele paga a conta.
E se despede de mim tão afetuosamente...
Tive um começo de tarde de PRINCESA.
Porque assim fui tratada.
E assim deveria ser tratada sempre.
Inferno astral?
Hoje não, por favor!
Que comecem as celebrações!

5 comentários:

Vivi disse...

E vc disse não ao convite pro show? Ai, ai, princesa...

Bibi disse...

Claro que eu disse não! Maria Bethânia!

Saulo disse...

Desconfio... LK?? bjus

Ana Raquel =] disse...

Que ótima estória! Celebre então Bibi, celebre! ;D

Bibi disse...

Saulo: Nãaaaao! Passou longe!

AnaR: Deixo que celebrem comigo! :)