31.3.09

Desenha?


Alguém, por favor, me explica o que é RSS?

O que é?

Pra que serve?

É útil?

Como faço parte?

Qual o passo a passo?

Aviso:

Eu sou do tipo que muitas vezes pede para desenhar!

velocidade necessária

Reprodução/ Adriana Lima


No dia 17.02.2006 eu abri o BibideBicicleta assim: "Começar é sempre difícil, mas necessário. A partir do momento em que temos o compromisso de observar o mundo, novos espaços são criados dentro de nós mesmos. O lugar que sempre habitamos, torna-se um ponto misterioso, pronto para ser desvendado. Esse blog é a minha tentativa de aumentar o meu campo de visão e passear pela cidade com a minha bicicleta...com a velocidade necessária de quem aprecia e desfruta a paisagem".

Hoje eu comecei a me perguntar por que foi que comecei. Que sentimento era esse que me fez dar início a tudo isso que virou o BibideBicicleta? Retrospectiva. Não retrocesso. É preciso parar o processo, para se ter noção do todo. E sabendo no que me tornei, ter condições de me posicionar para onde quero ir.


Gosto de ter opções simples. Poucas. Mas ainda assim opções. E saber quais delas eu escolhi e com que intenção, durante boa parte do processo. Ou nele todo. Esse lance de "deixa a vida me levar" parece uma ode à aventura, ao acaso; mas também à inconsequencia. E mesmo conhecendo a mágica imprevisibilidade da vida [e estar sujeita e aberta a ela] sinto que sou responsável pelos meus passos e deixo ao acaso a surpresa de passos incertos. Surpresa. Não todos aqueles que eu preciso dar. Ninguém conseguiria viver de sobressaltos! Eu não poderia e duvido que você também!

O compromisso de observar o mundo é, de certa forma, a necessidade de se olhar por dentro. Porque é através do que vem de dentro, que você projeta a maneira com que vai racionalizar o que vem de fora. É um fluxo constante. Como a sinapse. E quando eu não conheço, há a experimentação. Há a degustação e a avaliação pela aproximação. Fica complicado compreender o que está ai fora, se por dentro existe um tal furacão, que te traga para o fantástico mundo de OZ, tal qual Dorothy e Totó.

Novos espaços são necessários. Lembre-se sempre disso. Temos a chance de agregar conhecimento útil até o último suspiro da vida. Mas ponderemos: de que adianta tanto espaço se a mobília é minimalista? Gosto da simplicidade, mas ela, para funcionar a contento, tem que estar aliada a funcionalidade. Esse blog aumentou meu campo de visão. Ele me transformou em uma espécie de revisionista; não da constituição política do meu país, mas da minha compleição [constituição do corpo; organização física; temperamento; disposição de ânimo; inclinação]. Fomos mudando: eu e a minha forma de escrever e contar a história. Fomos mudando: eu, minhas paixões, minhas ilusões, meus desejos, minhas definições de certos aspectos, o mundo à minha volta, algumas das minhas preferências, a intenção de certas curiosidades, o alvo de certas setas. Tudo passa. Tudo se transforma. Valores e crenças também. Evoluem, se consolidam. Caso contrário, se transformam em fardo e amarras.

Hoje eu não quis passear pela cidade com a minha bicicleta. E não foi a chuva fina que me afugentou. Nem o vento cortante, que em arrefeceu. A realidade é pontual: quis parar de andar de bicicleta e me aquietar. Encapsular os sentimentos mais gritantes. Daí pensei. E pensei. E vi que se existe um pra que, também existe um porque. Finalidade. Quem estou não tipifica quem sou. E sou feita de palavras, de muitas palavras. Embora hoje queira calar todas elas.

OBS: José Bino e Galera! Eu não vou parar de escrever não! Avisa em casa e na vizinhança! Hoje eu me senti vazia! E não quis pedalar! Pela primeira vez pensei em não mais escrever. Mas ainda não é tempo de calar. Embora assim eu me sinta. Agora!

Love

Queria dizer que o BibideBicicleta passou dos 4 mil acessos em um piscar de olhos. Espero que a satisfação esteja garantida, porque não existe dinheiro de volta!
Não há uma relação monetária.
São laços.
Somos todos convidados a ir e vir.
Eventualmente.
Sistematicamente.
Para rir.
Para se emocionar.
Para trocar experiências.
Para ler sobre a vida de uma garota como tantas outras.
Para saber que estamos em barcos tão semelhantes.
Para compreender que o olhar sobre o mesmo faz a diferença.
Individualmente.
Para perceber que sentimentos podem virar palavras.
Para acreditar que palavras motivam.
Para fixar no coração que motivação gera mudança.
Para encontrar na mudança a força necessária.
De se redescobrir.
Para que nessa descoberta você tenha coragem de fazer resgates importantes.
Para que esses resgates te tirem do lugar comum.
Para que o lugar comum deixe de ser um lugar vazio.
Para que o lugar vazio não esconda mais uma dor não trabalhada.
Para que a dor se transforme em tratamento.
Para que o tratamento seja combustível para encontros:
íntimos & pessoais.
Para que encontros íntimos e pessoais garantam o direito de se estar em paz.
E para que a paz produza calor interno.
Para que o calor interno motive sorrisos sinceros.
Escancarados.
Para que sorrisos sinceros inspirem novas vidas.
Para que tendo nova vida, enfim, tenha-se a coragem de seguir esse caminho que se chama transformação:
sincera, profunda, palpitante, contagiante, verdadeira.
Que espalhe amor.
O genuíno.
Para que o amor genuíno seja a raiz de toda a felicidade.
Ela espera naquela porta ali em frente:
pronta para se acionada.
Basta um passo.
E esse passo gera um processo.
Basta não olhar para trás.
Mas para o alvo.
A luz.
A escolha certa.
A vontade.
A entrega cega, mas consciente.
A vontade de se doar não só ao outro, mas a si mesmo.
Primeiro.
Todos temos sentimentos escondidos em baús.
Não são fantasias.
Não são lembranças.
São fantasmas que nos impedem e limitam.
Mesmo relegados ao esquecimento aparente.
Ao let it be.
O amor.
Ele é real.
Ele existe.
Ele é tudo ou mais que sonhamos e desejamos.
O amor.
No entanto.
É destinado a quem tem coragem.
Não pelo outro.
Mas acima de tudo por si mesmo.
Basta um passo.
E assim começa o processo.
Também é preciso colo, ouvido, mão e um pouco de fé.
Só um pouquinho.
Como tempero.
Nesse processo, a nossa humanidade se transmuta.
Seremos cheios de tudo aquilo que se precisa para viver.
Não é utopia.
O amor é a fonte de toda a riqueza interna.
O real.
Aquele que começa em você.
E quando você conquista.
Você não o quer para você.
Apenas.
Porque um novo desafio é lançado.
De uma forma que não se pode mais voltar.
Quando se encontra o amor.
Você compreende o que é partilhar.
E nessa matemática incompreensível.
Atenção:
"quanto mais se partilha, mais ele cresce".
Um homem e uma mulher.
Um encontro.
Sem tempo.
Só verdades.
Coragem para ir além do óbvio.
Das palavras.
Das convenções sociais.
Dos dissabores.
Do medo.
Somos gente.
Como tanta gente.
Somos medo e desejo.
Somos o desejo de estar.
E permanecer.
Somos pele e somos instantâneos.
Eu e você.
Aonde quer que a gente se encontre.
Temos uma vida pela frente.
O futuro nos espera.
Urgente e tranqüilo.
Incoerente
Equilibrado e latente.
O tempo nos espera.
Embora ele voe.
Embora ele nos pressione.
Há um pouco de teia de aranha na ansiedade.
Lembra aquele velho baú?
Há saudade.
Há desejo.
Há urgência.
O amor tem as asas do infinito.
Tem o número das estrelas.
Sabe os grãos das areias da praia.
Sabe os pensamentos.
Não revela.
É um jogo, que não se joga.
Há entrega.
Além do luar.
Além do beijar.
Além do querer.
Bem mais que desejar.
Um infinito.
O universo somos nós.
E eu não sei onde está você...
Ainda.
Ou sei.
Será?
Tenho medo de não ver.
Me resgata.
Me espera.
E eu não sei onde está você...
Mas você está!
Só não está.
Ainda!

Oooops!

Gente, não aguentei!
Vi essa foto no blog do e tive que trazer para cá.
A foto é excelente! Um momento único.
Essa é a arte de quem registra o que parece ser repetitivo.
Existe um very moment.
Penso em várias legendas para ela.
Prefiro que cada um elabore a sua.
Um ato muito mais divertido e democrático!
Gosto quando protocolos são quebrados.
Unbalance.
A vida é assim.
Surpresas dentro de programações milimetricamente arquitetadas.
Somos reféns do destino.
Não das idéias.

30.3.09

Xô!


Já falei sobre pombos aqui. Muitos não devem se lembrar, porque foi uma das primeiras crônicas que fiz para o Bibidebicicleta (AQUI). Hoje eu vou ter que voltar a tocar no assunto. Mas antes da vamos aos fatos curiosos de nosso personagem.


Você sabia que existem mais de 300 espécies destas famílias distribuídas em todos os continentes? Podemos dizer que é uma praga multinacional. Tem gente que gosta de alimentar um pombinho... Mas, no geral, esse bicho piolhento gera mais encrenca, que compaixão e alegria. Um pombo pode viver até 15 anos. Isso quer dizer que aquela turma que faz cruw-cruw de manhã, perto da minha janela, pode me atormentar por mais de uma década! E seus filhos e seus filhos e seus filhos... Xô!

Os pombos podem atingir em vôo, a velocidades até 80 km/h. Eles são capazes de voar em distâncias até 315 km sem se cansarem. Possuem o melhor sentido de orientação de todas as aves e de todo o reino-animal, podendo localizar os seus ninhos e/ou pombais a mais de 1000 km de distância. Os que vivem aqui no prédio [sim, porque eles praticamente tem um chateau aqui no meu condomínio!] são até meio desorientados. Ou marrentos, porque vêm os carros se aproximar e não fazem questão de sair. Muitos morrem atropelados, que, covenhamos, é uma maneira bizarra de uma ave morrer...

Bizarro também é o seu ritual de acasalamento. Os pombos bicam-se mutuamente. A partir daí são um casal. Bem... Já vi esse comportamento em muitos humanos também! Bicam-se muito e acabam a guerra em acasalamento. A parada nupcial consiste em o macho dançar para agradar à fêmea. Do pombo, é claro. Mas já vi muito macho suado balançando o esqueleto para conquistar uma gatinha na boate. Ou uma pombinha. Ou uma rolinha... É, vamos dar prosseguimento ao assunto.

Durante a Antiguidade, os pombos eram utilizados, pelos Egípcios, Gregos e Chineses, como mensageiros nas guerras, campanhas políticas ou comércio. Até os Romanos compreenderam que também poderiam usá-los em suas conquistas. Em 1914, a França tinha um carro de pombo como peça de guerra! Na guerra de 39 a 45, os Ingleses usaram 16 mil pombinhos, que acabaram sendo caçados por falcões à serviço da Alemanha. Tadinhos! Hum, já posso imaginar um filme sobre isso!

Mas filme algum se compara a notícia real que eu tenho para te dar! O homem já foi à lua, domina a internet, tentou chegar ao centro da Terra. Mas em Sorocaba... A polícia interceptou dois pombos-correio que eram usados para levar telefones celulares para dentro de presídios. As aves, com sacolas amarradas ao corpo, foram encontradas nas proximidades da Penitenciária Danilo Pinheiro. Elas não chegaram a entrar no local com os equipamentos. Pombo sacoleiro à serviço do crime! Inacreditável!

28.3.09

Águas


O Jornal Hoje exibiu uma matéria muito bacaninha sobre o heroísmo de um menino de 13 anos, morador de Vitória, no Espírito Santo. Em um intervalo de apenas dois anos, Vinícius Cordeiro salvou a vida de quatro pessoas.

Vinícius e um amigo entraram em uma casa onde havia um incêndio e salvaram três crianças. O menino foi condecorado pelos bombeiros. E , mais recentemente, viu um amigo ter a perna decepada por uma embarcação em um canal da cidade. Pulou na água para resgatá-lo e agora torce por sua recuperação, no hospital.

Ato nobre e bonito. Digno de todo o destaque. Embora toda a ação tenha sempre seus riscos. Por um lado, acho que um guri de 13 anos ainda é uma criança. Mas veja só como é a vida...

Eu tinha 14 anos. Participava do Movimento Escoteiro. Não ficava com as meninas da minha idade. Na época, eu gostava de chefiar as crianças de 6 a 11 anos [o chefe era meu Pai, mas tudo acabava ficando sob a minha orientação e responsabilidade dele]. Planejava brincadeiras, contava histórias, cantava, ensinava sobre Cidadania, companheirismo, valores importantes. Nesse dia a gente tinha ido para a região da Costa Verde do Rio de Janeiro. Eram umas nove crianças e eu. A gente tinha acabado de chegar à praia. Ainda na areia, todos procuravam se acomodar. Tudo tinha ordem.

O Bruno, o mais velho e mais alto deles [mais alto que eu, inclusive] ficou em pé, olhando para o horizonte. Foi no mesmo momento que eu também avistei uma coisa estranha dentro do mar. O Bruno se aproxima de mim. Eu digo:

- Vai lá ver o que é!
- Eu não! Tenho medo.

Bruno só tinha tamanho. Pedi a ele que olhasse as crianças e deixei claro que ninguém poderia entrar na água. Outro menino de 11 anos foi até a casa onde estávamos para chamar meu Pai, que é da área de saúde.

Fui entrando na água e me aproximando do que parecia ser um menino boiando. A cabeça estava para baixo da água. Tive medo, mas fui pensando:

- Se esse garoto estiver de brincadeira, ele vai ver só uma coisa. Não conheço e nunca vi, mas isso não é brincadeira que se faça.

Ao chegar bem perto, meu maior temor mostrou-se real. Empurrei ele e nada. Já não dava pé para mim. Assim mesmo, puxei ele pelo braço, tirando sua cabeça de dentro da água. Mole. Caiu, sem firmeza. Desespero total. Comecei a puxar essa criança para o raso e a nadar contra a corrente, tentando manter a cabeça dele para fora da água e a minha também. Foi difícil.

Quando cheguei à parte rasa, eu o peguei pelos braços e comecei a tentar sair do mar. As minhas crianças [ele não era do meu grupo] já estavam aflitas na areia. Meu Pai vinha correndo lá atrás, pude ver. E uns fortões me viram com a criança nos braços e correram para me ajudar. Ali, né, já na parte final?!

Deitaram o menino na areia. Meu Pai começou a fazer as manobras de ressuscitação cardio-respiratória. Eu tentava afastar os meus meninos daquela cena, quando vi um grupo vir correndo na nossa direção. Juro que a cara de curiosidade mórbida daquelas pessoas me deu um embrulho no estômago. Uma dessas caras, no entanto, se transformou. Era a tia do moleque. Ela se jogou na areia em desespero. Eu só pude segurá-la e comecei a fazer perguntas, a tentar acalmá-la [impossível, não é?]. Ele tinha apenas 8 anos. Brincava sozinho no mar. Estava morto.

O mais impactante dessa história aconteceu nos bastidores, digamos assim. Cerca de 10 anos antes, meu Pai comandou uma manobra de ressuscitação cardio-respiratória que teve muito êxito. Por isso, antes mesmo de entrar na água do mar [na Costa Verde], eu pedi para chamar e-l-e [especificamente]. Dez anos antes daquela cena, eu caí em uma piscina e ali fiquei, roxa, inerte, até uma menina da minha idade perceber e mostrar para um adulto que eu havia “parado de nadar”. Meu Pai não foi o primeiro a chegar e pular na água, mas foi ele que me “trouxe de volta à vida”.
Até hoje eu me lembro dessa volta. De como eu abri os olhos de um escuro tremendo e tentei chorar, com a garganta ardendo porque bebi muita água; de como o meu Pai estava ali, a me proteger [e aí está uma boa metáfora para Deus, o meu Pai do Céu]. Não me lembro de nada mais além dessa volta. Desse reviver. E até hoje é assim: meu Pai vela por mim.

Com licença?


Com licença?

Sua intimidade está me invadindo!
Sim. Você leu certo.
Na era da espiadinha do BBB, você pode imaginar que eu troquei as bolas, a ordem natural das coisas, mas não.

A verdade é essa.

Muito mais que invadir a privacidade de alguém, a intimidade de muitos anda invadindo o meu espaço.
Exemplos não faltam.
Vou começar pelo menos óbvio deles, que terminaram de me contar na semana passada. Sim. Foi uma invasão em etapas crescentes.

Um amigo meu trabalha em um prédio comercial no Rio, que fica bem em frente a um prédio residencial. Daqueles. Um pombal, diriam os mais relapsos [ou pudicos]. Não tem como disfarçar. Um prédio grande de muitas janelas, de cara para um outro, de muitas salas. Pois bem. Todos os dias, por volta das três da tarde, um homem e uma mulher se encontram em uma daquelas janelinhas residenciais. Todos os dias tem “A FESTA NO AP", como cantaria Latino. Rola mesmo bundalelê com as janelas e cortinas abertas. Tudo aberto!

Muito provavelmente, um dia, um dos trabalhadores entediados, exaurido, sem força para pensar no mercado financeiro após um almoço caprichado, deixou-se levar pela movimentação além de sua janela. Viu, àquela hora da tarde, o que ele provavelmente só assistia no escuro [não falo de praticar, mas de assistir]. Sexo ao vivo e de graça. Às 15 horas.
Não demorou muito, a notícia se espalhou. A freqüência era assídua. Todo dia tinha filme e a platéia ia crescendo. Alguns já iam para a janela esperar a hora do gol. Sim, meus caros, havia torcida. E a coisa chegou a tal ponto, que a direção da empresa teve que mandar uma circular pedindo seriedade aos funcionários. Compostura. Quer dizer, sem ligar para a postura dos outros. Algo assim.

Tudo bem que não é o caso de ir para a janela e fazer a ôoooooooolaaaa. Mas, vem cá, a intimidade deles [os funcionários] estava sendo invadida. Ou não?

Outro fenômeno se mostra bem atuante. Manifestações de todas as ordens e nos lugares mais impróprios. Veja bem: todo Mané agora tem um celular que toca mp3. Todo Mané agora quer mostrar status, colocando a sua música favorita nas alturas. Seja no trem, no ônibus, no metrô, dentro do elevador. Muito em breve estarei vendo esses aparelhos tocarem dentro da igreja ou dentro do caixão.

- O último desejo de Wescley, era ser enterrado com seu celular com mp3 ao som de Charlie Brown Junior, Tupac e Netinho de Paula.

Dia desses é que tomei um susto com isso. Estou sentada na janela do ônibus. Chega um grandão e se espalha do meu lado. Braços e pernas soltos, me esmagando contra a lataria do busão. Se a folga já não fosse suficiente, o Mané pega seu celular e coloca, às alturas, o repertório inteiro de Beth Carvalho. Peraê! Eu estava ali primeiro e lendo! Eu podia gostar ou não do sambinha! Juro que cheguei a olhar para ver se em seguida viria um fone de ouvido. Louca eu, né? Coisa mais ultrapassada essa paradinha de fone de ouvido.

- Com licença? Sua intimidade está me invadindo!

Acho que ele percebeu meu muxoxo. E? Trocou de lugar. Simples assim. Sentou-se naquele banco mais alto, onde o som se propaga melhor. O ônibus inteiro tinha que ver que o fã de Beth Carvalho [o “Carvalheth”] tinha um celular mp3.

Minha vizinha do lado começou a fazer obra na cozinha dela. Situação normal de prédio velho. O pinga pinga tem que ter um fim. Obras? Mas é claro! E o pum tac pow plac tum tum tum começou a comer solto em horário comercial. Situação normal de obra. A vizinha de baixo sobe para fazer escândalo, alegando que o não era possível aquela barulheira, que o prédio parecia uma favela. Oi? Talvez eu devesse sugerir fones de ouvido para as marretas também... Só que, claro, história não pára por ai. É justamente essa vizinha que diariamente grita com seus filhos. É como se os meninos estivessem sentados aqui na minha sala e ela lá debaixo esculhambando a garotada. São dois meninos. A gente sabe de tudo. Não porque quer, essa é a pior parte. A intimidade dela invade a minha sala sistematicamente.

E quanta gente não fica aos brados ao celular. Você sabe a lista de compras, a programação do fim de semana, as viagens programadas, a situação difícil pelo qual a sogra passa. Você pode saber toda a vida de uma pessoa em um percurso de ônibus ou metrô. E briga de namorado? Outro dia, quase me levantei para consolar a menina que estava sentada no banco de trás. Era de partir o coração. Ah, peloamordedeus!

Estou achando que eu é que estou precisando de fones de ouvido!
URGENTE!


Não fui eu que encontrei o . Foi ele que me achou aqui no Bibidebicicleta. E que belo encontro tivemos, como quem conhece alguém pelas esquinas virtuais da vida. Como se eu tivesse deixado cair um papel e ele tivesse feito a gentileza de pegar e me entregar. Gosto desse tom de gentileza que me cerca.

Depois das apresentações, eu conheci o blog dele, o Slowdown. E descobri que ele tem uma forma delicada de colocar palavras: poesia. Das mais tocantes às mais picantes. Tudo tem sabor.

Assim como tento fazer com os meus textos, dando voz a sentimentos gerais; o faz rimas de histórias pessoais, mas que cabem na minha, na sua, nas histórias de que muito amou... E de quem quer muito amar.

O não batiza suas poesias. Notei. Achei isso tão diferente. Cada coisa que eu faço tem título, porque oferece uma individualização a cada trabalho. Nem sempre o título é bom, eu sei. Mas cada conjunto de palavras é um elemento único no "caderno da minha vida".

Mesmo sem nome, eu quis guardar essa daqui. E dividir com vocês o talento do . O único.


Amei
Amei demais
Eu sei
Bem mais do que eu precisava
E esse amor cresceu
Fico maior que nós
Maior que eu
Maior que a própria casa
Escancarou janelas
Arrombou as portas
Atravessou a varanda
Ganhou as ruas
E se perdeu no mar
Hoje
Tenho as janelas fechadas
As portas trancadas
E a casa vazia
Passo as noites
E as madrugadas
Escrevendo versos
Em meras poesias
Que são pra ninguém
Pra nada
Que são só palavras
Palavras frias
Agora
Quero uma paixão tranquila
Como uma noite de sono
Uma praia deserta
Uma casa de vila
Descansar meu olhar
E amanhecer meus dias
De frente pro mar
By José Luis Lacerda

27.3.09

Bafão

Olha gente!

Quando eu li que Dona Daslu estava Tranchesi na penitenciária feminina do Carandiru, juro, não acreditei. Para mim, esse caso já tinha sido despachado dentro de uma Louis Vuitton para bem longe da justiça brasileira.

A notícia durou apenas 38 horas. Outro "Louis", no caso o desembargador Luis Stefanini, do Tribunal Regional Federal (TRF) de São Paulo, ordenou a soltura da ré.

Eliana esteve presa na enfermaria da penitenciária. A empresária está passando por um tratamento de quimioterapia e radioterapia para combater câncer no pulmão e nos ossos. "Há coisas que o dinheiro não compra, para todas as outras existe Mastercard, o cartão aceito até na Daslu".

Fiquei perplexa de ler que a Daslu tem 50 anos no mercado. O caso - de sonegação de impostos [formação de quadrilha, descaminho (fraude em importações) e falsificação de documentos] - só veio à tona em 2005 e calcula-se que o montante passaria de 1 bilhão de reais. Isso sim é um "Bafão", como bem resumiu um funcionário da loja multimarcas, sobre a prisão de sua "patroa".

Bafão foi a prisão. Bafão foi a soltura. Bafão foi o caso da Casa e Video que veio logo em seguida [esse caso não seguia a mesma linha? Posso estar enganada...]. Bafão é a gente continuar acreditando que rico não vai para cadeia. Bafão é vermos castelos sendo montados com dinheiro público. Bafão é a violência chegando aos jardins dos endinheirados no Rio de Janeiro [todo mundo avisou!]. Bafão somos nós ficarmos atrás das grades de proteção, enquanto os "outros" ficam soltos às feras, nas ruas e avenidas. Bafão!

razão e simplicidade


Gosto do slogan da Philips que diz "Sense and Simplicicity". Aprecio as tradução das duas palavras: "razão e simplicidade". Dois significados que estão intimamente ligados ao meu estilo de vida.


Hoje fui fazer um trabalho freelancer. Visitei, pela primeira vez, o estúdio de um fotógrafo que já conhecia há tempos: Marcelo Corrêa. Matéria longa e cheia de etapas. Várias paradas durante o processo.


Nesse tempo entre a arquitetação de uma foto e outra - e seu mínimos detalhes necessários - Marcelo conheceu o Bibidebicicleta. E leu e teceu seus comentários. Foi ponto de partida para uma longa conversa cheia de intervalos e recomeços. Certamente um papo que antes, a gente nunca teve. Falta de tempo. E agora o tempo era dado aos goles, com seus intervalos de degustação. Tudo muito "Sense and Simplicicity". Gosto de gente assim.


E do muito que trocamos, ficam duas questões, as que gostaria de repartir com vocês. 1) Ele me disse que mandaria algumas fotos para que eu escolhesse a foto e o texto exato no qual ela caberia [fato que me deixou muito feliz, porque é justamente a fusão de dois trabalhos que usam o "Sense"]. 2) Ele contou que gosta de saber o que a nossa geração anda pensando, por isso ele lê muito os trabalhos independentes desenvolvidos em blogs, como o meu. [Caramba! O cara é fera e está estabelecido na sua profissão de uma maneira tão bacana e me inclui dentro dessa geração dele, que está aí para pensar o mundo e produzir o que cabe]. Ele, assim como eu, não quer ficar apenas restrito aos grandes clássicos, mas estar por dentro do pensamento e da produção contemporânea para ter acesso a novos ícones e formas de criar. Isso para mim é "Simplicity", na melhor tradução que lhe fica bem.


E para terminar o post, "a nota" destoante! Hoje uma baby face estava fazendo um dos seus primeiros trabalhos. Antes de saber disso, olhei para aquela menina sendo maquiada e fotografada e me achei tão ela. Eu pude me ver ali, começando a vida, a carreira, as minhas inquietações, indecisões, meu olhar de curiosidade sobre tudo. Perguntei a sua idade e constatei, incrédula, que tinha mais que o dobro que ela. Até hoje em me encontro em situações que sou apenas uma menina, começando a vida...

26.3.09

Hoje

Só hoje eu:

* Vi que pintaram uma parede da minha sala. A cor? Flamingo!
* Comprei um vestido um número menor que antes!
* Resolvi um projeto de vida
* Fiz análise
* Encontrei meu amigo
* Almocei panquecas
* Vi um casal namorando, sentados no meio-fio
* Bati altos papos
* Falei de viagem!
* Conheci uma mulher incrível, que só sabia de ouvir. Agora ela tem um rosto!
* Fiz as unhas. A cor? Pode beijar!
* Fui solidária
* Ensinei um menino de três anos que ele tem que pedir à professora para fazer xixi. Ele fez no shortinho, tadinho!
* Li um livro
* Falei no MSN
* Comi um bombom
* Marquei matérias
* Ajudei a organizar uma festa
* Tomei café em um lugar charmoso
* Lembrei que em uma semana o LV vai para Cuba
* Telefonei para a Onça
* Recebi um scrap carinhoso de uma amiga que há anos não vejo
* Disse que sonho em ser mãe
* Recebi um e-mail elogioso
* Combinei as possíveis ações do fim de semana
* Escrevi, escrevi, escrevi
* Senti falta da Cecil
* Fui feliz!

Cegos

Tim Walker

Estava sentada no metrô lendo um livro para entreter a viagem. O texto falava sobre valores. Era argumentativo. Questionava sobre quais eram esse valores passados de uma geração a outra. Fiquei tentando encontrar respostas na minha própria experiência. O meu conceito de valor tem que passar além do ensinamento religioso. Uma vez que religião se ensina sim, mas só abraça quem acredita em suas doutrinas. Fé não é algo concreto e nem abstrato. Fé não é sentimento. É como o vento, que você sente, mas não vê. E fui ruminando essa perspectiva até a minha estação.

Saí do vagão com preguiça de subir o lance de escadas que se interpunha em meu caminho. Olhei para frente e vi um casal de cegos vencendo os degraus na maior disposição. Sozinhos. Rápidos. Ele com a bengala e ela segurando o braço dele. Um, dois. Um, dois. Um, dois. Sem parar, sem vacilar. Aumentei o meu ritmo, porque não queria perder aquela dupla de vista. Ao sair da estação, eles começaram a perguntar para as pessoas em volta onde havia uma igreja evangélica. Os motoristas do ponto de táxi fizeram caras de interrogação, tentando balbuciar alguma coisa. Teve um até que apontou a direção. [Pumf! Pensei eu... Quem é o deficiente agora? As pessoas que não enxergam ou a pessoa que dá uma informação ineficiente?].

Assim que venci os degraus, me aproximei do casal. “Para onde vocês querem ir?”. “Posso acompanhar vocês até lá”, eu me ofereci. E entreguei o antebraço [a parte perto do cotovelo], para que a moça cega pudesse se apoiar em mim [aprendi que é assim que se faz e já me posicionei da maneira certa para eles]. “Nós vamos andar o equivalente a um quarteirão”, disse. Eles têm noção de deslocamento sim. E fomos andando. “Eu conheço um pouco desse lugar. Já passei por aqui”, me avisou a moça. Ela é esperta e gosta de um papo. “Passamos em frente à Lojas Americanas. Se depois você quiser alguma coisa Fulano...”. [Olhei para ela! Como é que ela sabia? O som das coisas... Assim como eu me preocupo em ver os obstáculos à frente e foco nisso; toda a atenção dela estava voltada para escutar as coisas ao seu redor]. Àquela altura dos acontecimentos, a gente não estava apenas andando, mas quase correndo. Eles estavam me impondo um ritmo muito rápido. E eu tendo que balançar o braço para que essas pessoas desavisadas, que andam olhando para ontem, não colidissem com o nosso grupinho de três.

Eu estava mesmo preocupada com o ritmo das nossas passadas. Falei isso para eles. “Vocês andam muito rápido. Reparei isso, enquanto vocês subiam as escadas do metrô”. Ele responde: “A vida passa voando, moça. A gente não tem tempo a perder”. Eu dei risadinha e disse: “É verdade”. A cega completou, marota. “A nossa deficiência é no olho, não é no pé não!”. E ria da bobeada que eu dei! Ela tem razão! Não precisa de outras deficiências, que não a sua de origem. Fiquei tão orgulhosa daquela dupla e da lição de vida que eles estavam me dando...

Nosso destino chegou. Era a direção oposta da que eu devia ir. Mas foi o melhor desvio que eu tomei nesses últimos tempos. A gente pensa que está fazendo algo nobre ao ajudar as pessoas. Que nada! A resposta interna é tão grande, que o auxílio, na verdade, acaba sendo um grande prazer. E a lição sempre vem. Ali, por exemplo, eu percebi que não são muitas as pessoas que se dispõe a orientar o outro. Existe gente com medo de gente e isso é uma coisa que não posso compreender. Foi quando me voltou à mente a questão dos valores passados de uma geração à outra.

Tenho exemplos em casa! Minha Mãe sempre ajudou aos cegos. Lembro de ouvi-la contando como fez, principalmente, de vê-la fazendo. Foi com ela que aprendi a questão de deixar que a pessoa se apóie no seu antebraço. Porque ela aprendeu isso com um cego, durante uma ajuda. Isso sempre foi muito espontâneo e natural aqui em casa. Também não foi a primeira vez que ajudei um cego a atravessar a rua; ou que falei com um surdo; ou que segurei o meio braço de quem não tinha um inteiro [um grande amigo do meu Pai perdeu metade de um braço em um acidente e para mim, ainda muito menina, nunca houve nada de diferente]; ou tive paciência com gente de idade; ou dei carinho para pessoas no hospital ou orfanato.
Não! Eu quero refutar a idéia de que estou fazendo um texto para mostrar que sou boazinha. Não, não sou! Isso é um pingo d’água dentro de um oceano de oportunidades. E ganhei mais com essa “carona”, que eles. Exemplos. Somos uma geração que precisa de exemplos práticos para o dia a dia. Eu tive exemplos dentro de casa. Hoje mesmo, ao contar o fato à minha Mãe, pude ver seus olhos brilhando de contentamento e um sorriso de quem percebe que a lição foi aprendida. Muito mais que isso: que ela parte de mim, porque é parte de mim. O mais engraçado é que hoje almocei com um amigo especial e ele me disse: “Você é muito complicada!”. Eu fiquei indignada! Não sou complicada baby, eu gosto é de simplificar a vida sugerindo novas cores à palheta da existência!

25.3.09

Rio Antigo


Outro dia veio um amigo aqui na minha residência. Meu Pai, garoto moderno do século XV, resolveu dizer que na época dele de jovem [da pedra lascada, diga-se de passagem] a garotada ia para a praia da Barra da Tijuca para ver "corrida de submarino".

Meu amigo ficou olhando o meu pai com cara de bocó. Devia estar pensando: "que será que o tio joinha tá querendo dizer?". Pois é, minha gente, eu cresci em meio a gírias idosas e piadinhas sem graça de duplo sentido. Situação normal. Eu nem quis tentar explicar o significado da gíria "da onda" que meu Pai usou. Passa amanhã.

Dias se passaram desde então. Peguei na estante o livro "Vida Modelo", do John Casablancas, que ganhei da Sassá da Vejinha de aniversário. Leitura muito interessante. Gosto de biografias. Gosto de quem tem coragem de contar a sua própria história. Gosto de ler sobre quem teve uma vida bem diferente da minha; alguém que está tão perto e ao mesmo tempo, tão longe. Pois não foi que nessa leitura eu encontrei a expressão "corrida de submarino"? Casablancas, um estrangeiro bem carioca, dizia que agora já sabia o que era.

Fui atrás de definições para o termo, embora eu saiba o que é graças aos causos repetitivos do meu genitor. "Corrida de Submarino" foi uma expressão criada na Segunda Guerra, quando jovens cariocas levavam as moças mais liberais para a praia do Arpoador ou da Barra da Tijuca, então deserta, sob o pretexto de avistar "navios" alemães.

Teve um engraçadinho que foi além na cunhagem da expressão. Dizia que ia ver os submarinos da SS: só sacanagem!

Falo do meu Pai, mas eu adoro as histórias do Rio Antigo e suas piadinhas de duplo sentido!

Há quem me ajude a fazer o blog;
Há quem me anima com posts;
Há os que são fonte de inspiração;
Há os que são só piração;
Há os que se inspiram em mim;
Há os que me inspiram assim:
"Você sem os seus braços, fica aquém...
Eu quero pra mim a Terapia do Abraço...
Entendo quando vc diz que precisa de alguém...
A gente fica sem a métrica da vida, perde todo o compasso."
D.L.
Há tanta vida lá fora e aqui faz tanto frio...

Silêncio

"E o resto é silêncio."
Shakespeare

24.3.09

Meus Braços


“Diante de uma dor pessoal compreendemos o valor dos afetos que até então pareciam naturais, parte de nós...” Lya Luft.

Vamos transcender a autora da frase [sei que ela é polêmica e alguns dos meus leitores especiais têm certa aversão pela escritora. Normal, ninguém pode agradar a todos e querer tal mérito é buscar o imponderável]. Vamos nos ater ao profundo significado de suas colocações. Li essa frase em uma revista que estava jogada aqui em casa. Exemplar antigo sim, de onde tirei a frase, que ganhou nova compreensão diante de fatos urgentes da vida.

Deus me deu muitos presentes em forma de amigos. Alguns deles acabam por se tornar a minha família escolhida, cujos laços não são sanguíneos, mas emocionais. Dessa forma, tenho alguns melhores amigos. Uma grande família escolhida por mim para dividir alegrias, tristezas, vitórias e segredos. Não gosto de agregar valor às pessoas. Na visão que tenho, todos fazem parte de um corpo, cada um importante na sua função, com suas características particulares e únicas.

Em uma semana eu vou ter que dizer adeus a um pedaço dessa família, que está de partida para outro país. Só de pensar, dói. E eu, sinceramente, gostaria que aquele que lê esse texto agora, saiba a dimensão do que estou falando. Porque só quem ama de verdade e é amado em retribuição, pode ter noção de que essas palavras não são a conjunção de algo piegas, mas de algo estrondoso e retumbante [com o perdão do exagero, que aqui encontra lugar]. E felizes são os que se permitem e se entregam ao amor.

Vivi e Ellus são casados. Amor compacto. Indivíduos únicos, também, para mim. Consigo amar a cada um individualmente e os dois ao mesmo tempo. Lembro como, quando, onde e porque nos conhecemos. Cada detalhe. E nos tornamos tão unidos, que as pessoas achavam que eu e a Vivi havíamos feito a mesma faculdade. Isso foi em Julho de 2005. Amor imediato.
E nesse tempo bendito, vivemos tudo o que se há para viver. E pareceu tanto e tão pouco. Nem sempre juntos, mas sempre por perto. Do lado de dentro. Testemunhei momentos especiais, mudanças, planos e mais mudanças. E mais planos e agora a mudança definitiva e para tão longe... Não sei me despedir. Não sei como é a dor de arrancar um braço. Meus braços estão indo para longe. Mas se a gente acompanhar a metáfora, eu posso acreditar que meus braços estão alcançando espaços maiores. Prontos para abraçar o mundo. Amor liberto.

Esse afeto tão natural, agora é parte de uma dor pessoal. Que eu queria não sentir, mas é preciso olhar e testemunhar a evolução pessoal da dupla tão amada por mim. Não há distância suficiente capaz de barrar o meu amor e a minha gratidão. Tem um trecho do verso de E.E. Cummings que eu gosto demais e que aqui cabe: “Carrego seu coração comigo. Eu o carrego no meu coração. Nunca estou sem ele. Onde quer que eu vá, você vai”.

Eu não sei me despedir. E não quero. Prefiro acreditar no até já. Contudo, é difícil demais me imaginar sem eles. Estão tirando o meu porto do lugar conhecido e agora, terei que saber que o porto seguro estará um pouquinho mais longe, mas lá estará. Amor tranquilo.

Eu não sei me despedir. E não quero. E me faltam palavras, embora as lágrimas expressem que é mesmo difícil transformar tudo em palavras. Texto não tem gestos. Estou confusa: triste e feliz. E tensa, por não conseguir traduzir o que sinto de verdade.

Eu não sei me despedir. E não quero. Mas quero deixar claro o meu amor. Que vai com eles. Recebi de uma amiga, uma vez, uma bênção irlandesa, que aqui também quero registrar, para tentar terminar, o que, na verdade, não tem fim:

"...que o caminho seja brando
a teus pés,
o vento sopre leve
em teus ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre a tua face,
as chuvas caiam serenas
em teus campos.
E até que eu
de novo te veja,
que Deus te guarde
na palma de sua mão".

Round 1

EEEEEEEE

O primeiro debate/me bate no Bibidebicicleta e seus protagonistas resolvem fazer isso em posts diferentes.
Assim eu fico tonta [ainda mais].
Depilação é sempre um tema polêmico [divertido e dolorido].
Não sabia que o 'Boa Noite' de uma velha senhora também o seria.
Não posso nem reclamar [e nem iria, porque adoro uma briguinha sexista], porque já causei muita polêmica lá no Sobretudo, o blog do Valmir. No da Lilica eu me atenho ao tema, sempre com comentários mulherzinha, que adoro!
Para quem não os conhece, vai aí um aviso, só para constar: "Essa dupla é movida a choque. Tropa de Elite. Mesmo time, ok?".

Só para constar a minha opinião. A Eliane coloca uma verdade: "Quem diria que o Hitler pudesse ser adorado por alguma coisa". O Valmir, refuta a idéia, também com razão. Agora, quem, raios, batizou a depilação dessa forma? E que outro nome poderia ser dado? Porque nenhuma outra forma me vêm à cabeça... Bigodinho de Chaplin? Seria uma 'perereca' bem menos perigosa!

22.3.09

Olha só

Olha só,
O que o vento faz com papel / E traga ele a notícia que for / Vai voar, voar
É assim quando se gosta de alguém / Não se consegue mais impedir
Que o amor, Faça o mesmo com o coração / Traga ele que razões trouxer Nem o tempo sabe mais dizer / Quando é ontem, hoje ou amanhã
Olha só, Como a gente nem sabe onde está / Nós somos o papel a voar
Contemplando esse mundo tristonho, profundo
Olha bem,
Porque quando se tem tanto amor
A gente pode ver muito mais
Voa...voa...voa...voa..
Folha de Papel - Leila Pinheiro

Depilação


Eu já li muitos textos que satirizam o ato de depilar. Vamos combinar que a depilação já é parte de um “combo beleza” ao qual a mulherada se submete mensalmente. É praticamente um ritual inquestionável. Doloroso, por certo, mas já totalmente incorporado aos hábitos femininos.


E como mulheres gostam de ter opções, eu mesma, representante desse clã, fico impressionada com a quantidade de depilações diferentes que se pode fazer. Principalmente quando falamos da depilação da virilha. Bem, virilha, no caso, foi o “apelido” que deram para suavizar o todo a que esse ritual de escalpo comporta. Outro dia eu entrei em uma clínica de depilação e a mulher estava me oferecendo um adesivo para colocar nas partes depiladas. “Uma surpresinha para o namorado”, disse a atendente. Eu estava só checando o preço. Caí na gargalhada. E imaginei que o homem que visse aquilo nas partes de sua namorada, também reagiria da mesma forma. Só imaginei... Na verdade, nunca perguntei aos meus amigos heteros, se eles têm alguma preferência em relação à depilação.


Estou tocando no assunto, porque li hoje mesmo no G1 que o estado americano de New Jersey desistiu dos planos de banir a depilação de virilha conhecida como "Brazilian". Há algum tempo venho acompanhando as notícias de que esse tipo de depilação pegou mesmo na América de cima. Acho até estranho, porque todas as calcinhas de lá parecem fraldas. Até que a Victoria’s Secret resolveu lançar a linha “Brazilian Cut” – com o corte mais cavadinho, que a gente usa por aqui. Fico pensando o que seria da sensualidade americana sem os itens “Brazilian”...

Voltando ao assunto. Uma das milhares de comissões que regulam até o horário de você fazer xixi ou a altura máxima permitida por ronco, cismou que essa tal depilação representava risco, porque duas mulheres foram hospitalizadas com infecções causadas pelo procedimento. Hello!? Será que serei eu uma pessoa muito passiva por acreditar que sim, pode dar problema, se você não cuidar direitinho do local ou passar qualquer coisa para aliviar a ardência que fica depois no local? [desculpem meninos. É preciso dar detalhes, Não reclamem das suas barbas sem conhecimento de causa!].

Trazendo luz à questão, um dos diretores da tal comissão disse que acredita que existem formas do procedimento ser realizado com segurança, não identificando na questão, um problema de saúde pública. O “bigodinho de Hitler” das americanas foi salvo para o próximo verão! Mesmo usando fraldão, elas podem respirar aliviadas!!!

Fiquei até curiosa. Existe mesmo uma preferência de depilação na ala masculina?

As Maravilhas


Curioso. Eu achava que As Sete Quedas faziam parte das Sete Maravilhas do Mundo. Fui pesquisar quais eram afinal e vou dividir com vocês:

1) Pirâmides de Gizé - a única que ainda existe
2) Jardins Suspensos da Babilônia
3) Estátua de Zeus em Olímpia
4) Templo de Ártemis em Éfeso
5) Mausoléu de Halicarnasso
6) Colosso de Rodes
7) Farol de Alexandria

Eu só me lembraria de três (2, 6, 7).
E então, através de uma eleição mundial, escolhem-se as Sete Maravilhas do Mundo Moderno, que são:

1) A Grande Muralha da China
2) As Ruínas de Petra, na Jordânia - Cidade construída há mais de dois mil anos pelos Nabateus
3) O Cristo Redentor, no Brasil
4) Machu Picchu, no Peru - A cidade perdida dos Incas
5) Chichén Itzá, no México - A cidade templo Maia, que funcionou como centro político e econômico dessa civilização
6) Coliseu, na Itália
7) Taj Mahal, na Índia

Dessas novas, eu também não me lembrava de todas (só 1, 3, 4, 6 e 7). Confesso que adoro esse tipo de lista...

History


Como é que a gente sabe que está vivendo um momento histórico? Pergunta complicada, não é? Mas é pertinente com a história que eu vou contar. Pensei nisso ainda hoje, quando estava escrevendo a um amigo, que está de partida para Cuba.

Você pode me perguntar: e daí? Sabe o que eu disse para ele? Tira fotos, viva as experiências com intensidade, registre as histórias, anote fatos. Com a abertura gradual que a Ilha vem experimentando, a gente sente que muito em breve tudo será diferente. Não estou aqui para discutir se a mudança vai acontecer para melhor ou para pior ou os rumos e consequências que uma abertura vá gerar. O fato é que quem está indo agora, vai visitar um lugar que está no limiar de uma transformação. Pronta para virar história.

Nesse caso, a gente bem observa que há indícios fortes que nos façam perceber a condição histórica de tempo e espaço. Fico imaginando que também não era difícil saber que alguma coisa aconteceria na Alemanha, na passagem da queda do Muro de Berlim. Os acontecimentos já registravam que não havia mais a separação entre as duas Alemanhas e a derrubada daquela fronteira foi um ato altamente simbólico para a concretização do fato histórico. Eu me lembro da matéria que o Pedro Bial fez nesse dia. Ele foi um grande correspondente internacional, daqueles que a gente diz que tem vontade de ser quando crescer. Ou também nessa última mudança de Papa que acompanhamos. Vamos combinar que João Paulo II veio dando indícios de que ia "bater a caçoleta" e entrar para a história.

No entanto, existem aqueles momentos que nos pegam absolutamente de surpresa. Por exemplo: os ataques de 11 de Setembro. Acho que todo mundo se lembra onde estava, quando soube que as Torres Gêmeas haviam sido atingidas. Eu me lembro bem. Estava na Faculdade. Minha amiga Renata passou no corredor dizendo que não teria aula, porque atingiram uma das Torres Gêmeas e estava para acontecer a Terceira Guerra Mundial. Eu fui correndo para o laboratório de publicidade, onde o professor tutor era brother e ia me deixar usar os computadores [você veja só uma coisa. Sou da época em que a faculdade tinha pouquíssimos computadores à disposição]. Os sites de notícias estavam congestionados. Já nem baixavam fotos, só textos mudados em uma velocidade constante. Fomos para o auditório acompanhar o desenrolar dos fatos.

Vamos pensar juntos: um dia como esse é inesquecível, certo? Não tem como não entrar para a história. Mas conheço gente que não deu tanta importância ao fato. Uma amiga minha, jornalista, estava visitando a cidade bem no dia da tragédia e não quis se manifestar a respeito. Era um direito dela? Claro! Ela se permitiu não querer fazer parte dessa história. Mesmo que fosse apenas mandando para o jornal um relato em primeira pessoa de como estava a situação na Ilha. Nada. Mas ela estava lá! Fato! Uma maré da história a pegou no meio do curso normal da sua vida. Somos expostos a situações como essa a todo e qualquer momento. Ou você acha que aquele povo que foi tragado pela Tsunami estaria lá, de prancha na mão, esperando a maior onda do mundo?

Gosto de ver a história acontecendo. Gosto de saber-me parte desse livro sem fim. Ainda me assusto ao pensar que Veneza pode afundar, que a Califórnia pode se partir no Grande Terremoto, que as pequenas ilhas podem ser tragadas por grandes ondas... É triste saber que não conheci o Salto das Sete Quedas [maior cachoeira do mundo em volume de água. E que não havia sete quedas, como o nome sugere, mas 19], que foi destruída para que o lago da Usina Hidrelétrica de Itaipu fosse construído [Já visitei a Usina. Já visitei as cachoeiras da Foz do Iguaçu com todos os níveis de água que se possa imaginar].

A gente também faz história, direto, quando deixa a nossa marca na vida das pessoas. E essa marca é registro da nossa passagem, da consequência das nossas ações na vida do outro. Eu faço história na vida de quem convive comigo e tento registrar aqui, para que outros nos saibam história. Não posso trazer a minha vida para a tela, mas essa já é uma outra história.

21.3.09

Minhas Respostas


Uma amiga minha mandou uma série de perguntas que podem "revolucionar o pensamento contemporâneo". Resolvi dar a minha contribuição, porque vai que esse seja o meu viés no mundo? Tudo muito suspeito...

*Como se escreve zero em algarismos romanos?
Os romanos sempre foram muito concretos para acreditarem em coisas abstratas. Zero é um número muito abstrato para fazer parte da contagem Romana. Isso é coisa de Grego e suas histórias místicas.

* Por que os Flinstones comemoravam o Natal se eles viviam numa época antes de Cristo?
Porque eles já conheciam a profecia de que existiria um Salvador e já se alegravam com isso em um dia determinado pelo comércio de Bedrock.

* Por que os filmes de batalhas espaciais tem explosões tão barulhentas, se o som não se propaga no vácuo?
Porque nós, que não estamos no vácuo, mas no cinema, precisamos dar emprego [e Oscar] aos engenheiros de som.

* Se depois do banho estamos limpos porque lavamos a toalha? Porque a maioria de nós não lavra atrás das orelhas como o palhaço Bozo mandava em seu programa diário. Também soltamos pele, descamamos tal qual cobra... Um pouco menos, é verdade.

* Como é que a gente sabe que a carne de chester é de chester se nunca ninguém viu um chester? (vc já viu um chester?)
Eu já vi um chester congelado no supermercado! Bem vi sim... Acredito na Sadia, que deve ter uma criação deles em laboratório numa região X, tão protegida, quanto àquela região que o pentágono guarda as informações sobre os ETs. Chester também é um nome masculino americano, mas eu nunca comi um! Eu juro!

* Por que quando aparece no computador a frase 'Teclado Não Instalado', o fabricante pede p/ apertar qualquer tecla?
Pede? Sinceramente nunca tive que instalar um computador. Mas o mouse tem teclas também, não?

* Se os homens são todos iguais, por que as mulheres escolhem tanto?
Faria a mesma pergunta para os homens. Embora eu não ache os homens sejam todos iguais.

* Por que a palavra 'Grande' é menor do que a palavra ‘Pequeno'?
Para que nenhuma delas sofra de complexo e continuem servindo ao seu propósito na língua portuguesa sem reclamar.

* Por que 'Separado' se escreve tudo junto e 'Tudo junto' se escreve separado?
Porque tudo junto são duas palavras independentes, descoladas e separado é uma palavra só. Ela não gosta de coexistir.

* Se o vinho é líquido, como pode existir vinho seco?
Porque o garçom passa um paninho no suor da garrafa antes de nos servir. Há outros que não ligam para esse detalhe.

* Por que as luas dos outros planetas tem nome, mas a nossa é chamada só de lua?
Porque a nossa é Matrix. Tem gente que canta que a Lua é de São Jorge. Aliás, o namorado do meu amigo Jorge deu a lua para ele [já falei sobre isso aqui no Bibidebicicleta]. Será que é por isso?

* Por que quando a gente liga p/ um número errado nunca dá ocupado?
Porque essa é a oportunidade que o universo nos dá de fazer novos amigos. Aproveita, boba!

* Por que as pessoas apertam o controle remoto com mais força, quando a pilha está fraca?
Porque tem sempre um dedo de chumbo em cada residência, que vive para estragar esses frágeis aparelhos e a gente é levado a pensar que ele já estragou mais um ao invés de imaginar o mais óbvio, que é problema de pilha. Vai ver a pilha do nosso cérebro também enfraqueça vez ou outra.

* O instituto que emite os certificados de qualidade ISO 9002, tem qualidade certificada por quem?
Pela Cientologia! Perguta só ao Tom Cruise.

* Quando inventaram o relógio, como sabiam que horas eram, para poder acertá-lo?
Pela posição do sol ao meio-dia.

* Se a ciência consegue desvendar até os mistérios do DNA, porque ninguém descobriu ainda a fórmula da Coca-Cola?
A Coca-cola não é parte do nosso DNA? Já já descobrem!
*Como foi que a placa 'É Proibido Pisar na Grama' foi colocada lá?
Antes de plantarem a grama!

* Por que quando alguém nos pede que ajudemos a procurar um objeto perdido, temos a mania de perguntar: 'Onde foi que você perdeu?'
Porque mamãe pagou durante quatro anos a faculdade de jornalismo para que eu me tornasse alguém capaz de fazer perguntas pertinentes. Sabia não!?



* Por que tem gente que acorda os outros para perguntar se estavam dormindo?
Essa é um dos itens das tarefas diárias de um chato. Se eles não fizerem, como poderão saber-se chatos?

* Se o Pato Donald não usa calças, por que ele amarra uma toalha na cintura quando sai do banho?
Porque suas penas ficam ensopadas e se ele molhar o chão, a Margarida dá pancadas nele! É mais prudente não provocar as mulheres...

Por mais que


Por mais que você tente viver sem expectativas, a gente está sempre esperando por alguma coisa ou alguém;
Por mais que você pense que esse estágio é passageiro, qualquer estágio sempre será, porque estamos nessa vida de passagem;
Por mais que a gente ame o dia que estamos vivendo, o amanhã nos chama e ele vem inexoravelmente;
Dias especiais tornam-se lembranças especiais – uma sobrepondo-se a outra para formar a teia de um pensamento;
Por mais que a gente busque adquirir conhecimento, a vida sempre vai parecer um enredo de poucas respostas ou de muitos questionamentos;
Nada é igual, ninguém é o mesmo sempre, tudo muda e se transforma em oposição ao tempo dos acontecimentos que não se espera esperar;
Por mais que algo ou alguém te dê segurança, dentro de nós há sempre uma insegurança de nascença, um instinto de sobreviver ao que lhe parece ser desconhecido;
Mesmo a fé sendo a certeza de coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não vêem, a entrega a ela é um passo difícil, porque a nossa humanidade clama pela concretude dos acontecimentos, porque assim fomos gerados;
Por mais que se tenha fé, sempre teremos a humanidade a nos lembrar das nossas inseguranças;
Por mais que se tenha amor, o desamor reina e nos declara que o caminho à frente é cheio de espinhos. Mas é preciso continuar;
Por mais que se tenha amor, a gente nunca sabe o quanto dele é suficiente;
Por mais que se tenha amor... Por mais que você tente viver sem expectativas, a gente está sempre esperando por alguma coisa ou alguém.

20.3.09

Robertão


Li há algum tempo que Charles Möeller e Claudio Botelho planejam criar um espetáculo musical sobre Roberto Carlos. Podemos dizer que é uma dupla que emplaca sucesso atrás de sucesso nos palcos. Uma mistura com Robertão pode ter um resultado, no mínimo, interessante. Todo mundo tem uma “preferida” do Rei. Seja na voz dele ou em uma das muitas regravações e versões de bandas e músicos mais pop [digamos assim].

A primeira vez que vi o Roberto Carlos, eu nem pensava em ser jornalista. O irmão da minha vizinha fazia um tratamento na Urca e a gente sempre parava ali na mureta, em frente ao apartamento dele. Um dia eu o vi passar com a Miriam Rios, sua mulher, na época. "Grande coisa", lembro de ter pensado.

Anos mais tarde, Esmê, meu chefe, me dá a missão de descobrir se o Roberto faria missa de dois [ou três, já nem lembro] anos da morte de Maria Rita. Sabe qual foi a primeira coisa que pensei? “Caraca, eu estou de preto!”. Já ia pedir para descer e comprar uma roupa azul, quando me dei conta de duas coisas:

1) Não sou fã;
2) Ele não gostava de marrom, não era isso? Missa de preto tem até relação...

Hoje me dá vontade de rir com essa preocupação boba. “É o Rei, é o Rei"... A gente logo pensa. Pô, bicho, é o Robertão! E fui eu para a porta da igreja farejar se haveria missa. As caixas de equipamento de som azuis denunciavam. Chegando mais perto, vi a marca RC. Já é!

Fiz a cobertura daquela missa e de, pelo menos, mais uma três [ou quatro]. A liturgia era sempre a mesma. Mesmo padre, mesma sequência de acontecimentos. E a tristeza no rosto de um homem que perdeu o seu amor. Porém, quando ele abria a boca para cantar... Vou te dizer! Roberto ao vivo é sensacional. Aquela voz inconfundível, que te embala, que te emociona. Mesmo que as músicas também se repetissem “ad eternum”. Meu bicho carpinteiro sossegava no banco ao ouvir qualquer acorde “Del Rey”.

E eu me lembro da última vez em que estive na missa. Foi tão especial, quanto a primeira. A estréia sempre rola sob o signo da novidade e você se impressiona até com o ZzzZzzz de um mosquitinho que passa ali, desavisado. Na última [que fui], a gente já sentia que o Roberto estava começando a reagir. Seguia firme no tratamento do TOC, já havia voltado a fazer os shows e até a “marombar”, como ele mesmo disse em uma de suas coletivas.

Finda a missa, fotógrafos e repórteres correm para frente da capela. Só que os fotógrafos ainda não haviam sido liberados. Nós, repórteres, estávamos em um grupinho, atrás de um cordão de seguranças, esperando o Rei falar com seus familiares. Nisso, vem atrás de nós uma horda de fotógrafos enlouquecidos; tal qual estouro de manada. Eu estava presa entre um segurança e o banco da igreja e comecei a ser esmagada. E o fotógrafo gritando comigo, porque eu estaria atrapalhando a sua foto [ora você veja!].

Nessa situação esdrúxula, ele me pegou pela mão. Foi isso. Roberto Carlos me pegou pela mão e me colocou na parte de dentro do tal cordão de isolamento. E ficamos lá: eu, ele, o padre Jorjão, a Kassu (assessora dele) e uns três familiares. E só o que me vinha à cabeça era: “Não adianta nem tentar me esquecer. Durante muito tempo em sua vida, eu vou viver. Detalhes tão pequenos de nós dois, são coisas muito grandes pra esquecer e toda hora vão estar presentes, você vai ver”.


Acorda menina! Foram segundos desse torpor Robertiano até eu me dar conta de que eu tinha uma exclusiva! Enquanto ele se encaminhava para a porta, lembro de ter feito três perguntas e ele ali, me respondendo tudo com calma, sem deixar de seguir o seu caminho. Foi legal, mas... Não virou matéria. Fim de ano, a revista já estava fechada. A notícia da missa era requentada. Você pode pensar, como eu também pensei um dia: “grande coisa”. Tudo bem, voilà. Ficou o meu “detalhe” com Roberto.

19.3.09

Meus Mendigos


Tenho respeito pelos mendigos.
A frase pode parecer estranha, mas é, de fato, verdadeira.
Mas tem que ser mendigo mesmo, daqueles de carteirinha. Que escolhe um lugar na calçada e ali vive.
Não compactuo com o que agora chamam de população de rua. Gente que tem casa e vive nas calçadas por uma série de razões. Não gosto dos que exploram crianças e feridas em busca de um trocado. Nem dos que se juntam a outros tantos para cometer crimes ou fazer baderna.
Aprendi a ter respeito pelos mendigos que tinham código de ética nas ruas.
Está achando estranho? Eles existiam!

Minha Avó morava em outro estado e sempre atendia a população carente à sua porta: era um copo de água, um pedaço de pão ou algo que estivesse na panela. Tinha um mendigo que ia sempre lá. Não todo dia, mas quando a coisa apertava. Arrumou uma namorada. Bateu lá na minha Avó e ganhou a sua "merenda". E falou para a namorada:

- Come! Come mesmo Mulher! Depois não vai dizer que passou fome na minha companhia!

Hein!? hahaha

Em frente ao apartamento das minhas tias tinha um também. Esse era considerado “de casa”. Marílio era o nome dele.
Marílio era boa praça. Cumprimentava os moradores.
Gostava de cantar. Essa era a parte ruim.
Como eu ia lá raramente, achava engraçado.
Fazia muito ôo.
Assim, como um grito de guerra.
Era educado. Minhas tias passavam e mexiam com ele:

- Como é que vai Marílio?
- Tudo belezinha, minha querida santa!


Minha querida santa era algo de muito especial.
Passei um dia com uma Tia que adorava uma cervejinha. Ela viu que Marílio bebia a sua, em copo de água mineral.

- Aí, Marílio, tomando a sua cervejinha!
- Estou sim minha querida santa. Quer um gole?

E esticou o copo na direção dela. “Vai encarar?”, eu perguntei, já morrendo de rir. “Eu não! Aquele copo todo babado”, ela respondeu. Foi quando eu ri ainda mais, porque não é possível que ela tivesse considerado a minha pergunta. Daquele dia em diante, disse que era o namorado dela. Ela dizia que era o meu. Mas toda vez que eu aparecia lá, ela me contava uma novidade. “Vi a bunda do Marílio hoje”... A gente ria. Era prenúncio do Big Brother Brasil.

Ele ficava ali dia e noite. Às vezes sumia. Minhas Tias iam para a janela, esperando por sua volta.

- Acho que dessa vez não tem volta. Devem ter levado ele para o abrigo!

Que nada! Dias depois estava ele de volta, cantarolando. Alegria da rua.
Tia N descobriu o número do pé dele e comprou um kichute. Tinha épocas que dava comida, noutras dava roupa.
Não deixava ele acumular bens não, porque apareciam outros para roubar e fazer maldade.

Quando um “dingão” de fora se estabelecia na rua, ele nem dava conversa. Se afastava. Não criava vínculos.
Até que um dia ele sumiu mesmo. Virou história.

Tentei ter a mesma afeição pela mendiga que morava na esquina da minha rua, a Lucia. Não rolou química.
Lucia era loira e vivia sentada entre dois carrinhos de supermercado. Seus bens.
Estava sempre suja.
Encardida.
No entanto, exibia as unhas do pé e da mão com esmalte vermelho.
Bem feitas, até.
Aquele unhão rubro em contraste com a sujeira.
Soube depois que ela havia sido manicure.
Desmiolou, mas não perdeu a prática.
Naquelas condições admirar uma unha bem feita é sinal de que boa profissional ela era!
Tinha medo da Lucia, porque ela perdia o juízo, vez ou outra. Da minha Mãe ela gostava, já que toda vez que ela passava, deixava um dinheirinho ou um esmalte para ela se divertir. Nunca vi a Lucia bebendo.
Já a encontrei nua, deitada em outra calçada, que não “a casa dela”.
Cena triste.
Talvez por eu ter crescido e pelas condições da cidade, a categoria mendigo de estimação já não exista mais.
Agora a gente ouve casos de pessoas que ajudam à população de rua, que acaba se voltando contra a própria família, a mão que o alimentou.
Acabou o código de ética.
Acabaram-se as cantorias.

"Boa Noite"


CASOS DE FAMÍLIA

Estava lendo no quarto, com a porta aberta.

Minha Mãe na sala, assistindo ao jornal [acho que era Band ou SBT. Já era tarde para ser a dupla Bernardes & Bonner].

O noticiário termina com o tradicional "boa noite" com a voz poderosa do locutor. Eles sempre parecem caprichar na impostação ao se despedir do telespectador.

Imediatamente após, uma voz fina me desperta totalmente da leitura:

- Boa noite moço!

hahahaha Minha Mãe está se despedindo do locutor. E se levanta para desligar a televisão. Achei que isso era história dos tempos da "TV à lenha", mas ainda acontece! O "boa noite" dela anunciava o término dos trabalhos. Era hora de se recolher e ir para a cama.

Aqui em casa existe essa mania estranha de se anunciar o que vai fazer: vou fazer café, vou tomar banho, vou sair, vou fazer cocô. Como se isso fosse a legitimação do ato. Sem anúncio, parece que não aconteceu [direito]. Hoje, por exemplo, minha Mãe ficou o dia inteiro fora. Chegou em casa e me viu com um vestido bonitinho, cabelo penteado e perguntou:

- Tomou banho?
- Por que? Tá controlando meu banho agora? hahaha
- Não! Estou te vendo bonitinha.
- ???????

Não entendi a pergunta até agora. Taí, só pode ser a necessidade de anunciar que eu tomei banho. Mesmo! E se a gente não lava a mão? Ui! Oito anos de azar! É pior que quebrar um espelho:

- Já lavou a mãozinha?
- Já Mãe!
- Ah, mas lavou bem lavadinha?

hahahaha É sempre a mesma coisa. Acho que a preocupação é lavar meia mão! Ou apenas a mão que não abre a torneira, sei lá! Uma abre a tornei. Ação. A outra é levada até a água aberta. Reação. Uma fecha a torneira. Ação. A outra se balança para secar ao natural. Reação.

Voltando ao caso do "boa noite" do apresentador do jornal, eu larguei a leitura totalmente de lado. E ri. Sozinha. Minha mente voltou a um passado distante. Minha Mãe tinha uma tia, que já bem velhinha, resolveu dizer que era namorada do Boris Casoy. Ela já devia ter uns 100 anos. Sem exagero. Ela esperava ávidamente pelo começo do jornal. "Moça" recatada e de boa família, a Tia da Minha Mãe colocava um lençol em frente ao aparelho de TV para mudar de roupa. O "namorado" não podia ver! E ficava toda linda, esperando o começo do noticiário. Lembro sempre das touquinhas que ela mesma tricotava. Sua única distração diurna. A notura era esperar naquela janela [a tela] pelo "boa noite" do Casoy.

Era surda como uma porta, tadinha. Mas o "boa noite" do começo e o "boa noite" do final do noticiário, por um milagre, ela sempre ouvia. E respondia, feliz, feliz, acenando tímidamente com a cabecinha. E dormia alegre e desdentada. Guardava o sorriso num copinho com água, para a "visita" do dia seguinte.
Convivi pouco com ela. Mas lembro de passarmos umas semanas juntas nessa época do namoro. Eram duas crianças. Ela me olhava e sorria com seus dois olhos azuis. Lindos. Atentos. Cheios de doçura. Ela achava tudo engraçado. O que, eu não sei. Mas eu ria com ela. Pra ela. Ganhei uma touquinha de crochê rosa. Não sei mais onde está. Mas é o tipo de presente que não se esquece. Uma maneira de dizer que gostava de mim.

Ela deu seu último "boa noite" com 103 anos. "Namoraram" bastante. Ela na cadeira de balanço, cobrindo as pernas. Ele na tela, sempre "a olhar" para ela.

18.3.09

Preocupação





Queria dividir um temor com vocês:






Tudo o que escrevo aqui é muito pessoal, ou seja, são experiências íntimas que deram certo ou errado para mim. São momentos que vi, ouvi ou vivi. E tem ainda as fases de experimentação muito específicas, que deixo passar para o papel a fim de me saber história.

Assim sendo, o Bibidebicicleta é a minha história pessoal contada através do meu filtro. Único. E, como eu sempre digo, a ótica que trago aos acontecimentos faz com que eles pareçam coletivos e não individuais. Porém, vale o alerta: as soluções, as decisões, as mudanças, as iniciativas, as alegrias, os medos, as tristezas são muito minhas. É importante que quem leia reflita: "Eu faria o mesmo?", "Isso tem a ver comigo?", "O que eu posso tirar de lição para a história da minha vida?", "Preciso ou posso ser assim?".

Mudar, transgredir, evoluir é uma decisão muito pessoal. A maneira como devemos proceder em cada caso é bem específica e direcionada. Ninguém é igual a ninguém; mas todo mundo pode se ajudar. Perceberam aonde quero chegar? O mistério da vida está em viver seus acontecimentos com verdade e ir descobrindo qual o seu caminho. No entanto, há os que tem mais facilidade de traduzir a confusão de sentimentos que cada fase da vida nos traz, em palavras. Não quero que as minhas palavras se percam no vento. Não quero , também, que o meu exemplo leve você a achar que as minhas escolhas deixariam a vida de qualquer um linda e maravilhosa. Se assim fosse, hoje eu seria a pessoa mais realizada que se tem notícia. Mas estou aqui, assim como tantos, aprendendo a ser feliz. A cada passo e a cada dia.

Escolhas são difíceis sempre. Porém, você tem que se conhecer, para sentir-se confortável em fazê-las. Se você não escolhe; a vida te engole!

Coisas do Bibi

Upsy!
Esqueci de comentar com vocês [ou não!?]:

Um dia, uma repórter ligou lá para o escritório que eu trabalhava. Ela disse que segundo uma pesquisa X, o ator Y representava o "neohomem". Não vivemos mais a era do metrossexual. O Neohomem até se cuida, mas não perde a pegada, aquele ar mais selvagem... [ela queria fazer a matéria com o senhor Y, que não pôde fazer].

Eu falei para ela: "opa, mas sobre isso eu já falei lá no Bibidebicicleta!". E ela veio aqui, elogiou o texto, comentou algumas vezes e agora anda sumida.

Hoje eu voltei a viver a situação curiosa. Uma produtora do canal K me ligou. Falou do Bibidebicicleta e me pediu cases de histórias de amor. Em cinco minutos lembrei de cinco boas histórias. Vamos ver se alguma delas vai para o ar! A história tem que ser realmente boa e os personagens [gente comum] têm que topar aparecer na TV [tem muita gente que não gosta. Lembrei de algumas que, na minha opinião, a pessoa não toparia. Nem citei. Seja qual for o tema, a TV sempre intimida].

Achei tão lindo pensar e lembrar disso...

Pensando...

“A pessoa que é livre e que exercita sua liberdade sempre choca os outros”Vera Fischer.

Ando muito sem inspiração. Fico chateada de não conseguir escrever sempre aqui. Contudo, a minha fidelidade maior é com a escrita que brota de dentro. Não queria ter que forjar um insight para preencher a lacuna que deixo aqui, quando o entusiasmo não me acompanha.

A criatividade é uma peça de roupa que está sempre comigo. É minha irmã. Cheia de vontades. Eu a desperto sempre que preciso. A vontade não. E a vontade anda tão alinhada ao desejo. E o meu desejo agora é ficar em paz. Quieta. Pensando...

- De tanto pensar, morreu um burro!

Minha Mãe me dizia, quando eu era criança e estranhamente ficava quieta. O normal sempre foi falar e correr e pular e respirar e inventar. O tempo de pensar para mim, antes, era tristeza. Hoje, não mais. Vivo dias de sol. Estou confortável dentro da minha própria pele e sigo o vento. O vento das boas notícias. Então, estou pensando, mas não estou matando nenhum burro! [De onde veio esse raio de frase, afinal?].

Na última segunda-feira eu fui em busca do passado. E o encontrei em forma de amigos. Café, pão de queijo e palavras [Eu sei, pode parecer até um vício café com pão de queijo. Pode ser. As palavras, no entanto, não eram de livros, como no outro texto, mas palavras trocadas com afeto]. E pra que servem as palavras? Servem para dar forma ao pensamento. E assim a gente transforma a poeira em atitude. Muitas vezes através de simples gestos: tirar livros da estante, telefonar para quem está distante, escrever o que antes era apenas um fluido mental disforme.

Gosto da ação e reação. Gosto de limpar a “casa” para trazer gente para dentro. Ou para o centro. As pessoas que voltaram do passado, sempre estiveram no coração, mas não estavam na história. Talvez porque existam histórias que precisam ser elaboradas em seus próprios centros. E vivemos a nossa vida individual à espera de trazer para perto quem a gente sente que precisa estar. Novos olhares de velhos conhecidos. Novas forças somadas. E a liberdade de ser quem eu sou, quem eu fui e quem gostaria de ser.
Não precisamos de máscaras, quando vivemos de verdade a nossa verdade. Não aquilo que os outros esperam. Por que isso? Porque vi um filme que o protagonista dizia: “você é dura consigo mesma; conseqüentemente é dura com quem está a sua volta”. Já fui dura comigo e agora aposto na suavidade de ser e me saber mulher. Muito importante isso.

E aquela frase da Vera Fischer que abre o texto? Estava lendo a matéria da minha amiga Lu Barcellos para a Quem. Ótima matéria. Essa frase da Vera me acompanhou durante toda a entrevista. Li tudo pensando nesse pedaço de declaração. “A pessoa que exercita sua liberdade sempre choca os outros”. Sou livre para fazer as minhas escolhas pessoais e achar que tudo vai ficar bem. Sou livre para exercitar o pensamento e acreditar que sempre existe algo de bom no mundo, nas pessoas. Sou livre para amar e não mais amar uma pessoa e achar que tudo vai ficar bem. Sou livre para não escolher o óbvio e muitas vezes choco as pessoas. Não porque as minhas escolhas são do tipo “cabeludas”, mas porque são diferentes, espontâneas. Fazer o que? O que me perturba é quando encontro alguém que julga pelo rótulo e pára por aí. Muitas vezes o rótulo é apenas uma burka imposta pela sociedade.

Ontem eu conversava com um amigo pelo MSN, quando escrevi uma observação cômica sobre o "nada" daquele papo. Eram fatos hipotéticos. Dei a minha opinião, ele riu muito e disse:
- Só você!

Outra frase que me prendeu. Estou pensando nela até agora. Minhas escolhas não fazem parte de um jogo. Só sei ser eu mesma. Parece fácil me compreender, fazer uma leitura de mim, me pescar. Nenhum de nós é fácil. Todos carregamos um mundo de coisas particulares, únicas. É mais fácil parecer fácil e se entregar à mesmice dos acontecimentos. Mas há tanta vida aqui dentro... Gosto de me embrulhar para presente. Laços de fita. Surpresa!

17.3.09

Lei da Selva

Foto de Marcos Serra Lima


Durante o tempo que eu morei fora do país, uma onda de assassinatos começou a acontecer perto da região onde estava hospedada. As pessoas eram alvejadas na rua, a esmo, por um franco-atirador armado com um rifle. Foram 14 ataques, 13 vítimas e 10 mortos em 21 dias de caçada. O enredo, que mais parecia um thriller de Hollywood, era mais que assustador. As notícias e falta de pistas era aflitivas o suficiente para quem não estava mais habituado a trevas nos jornais.

A despeito de todas essas coisas, meus amigos, nativos da terra, continuavam a seguir com as suas vidas. Idas e vindas em longas estradas, sem maiores palpitações. Estávamos há três ou quatro horas de onde tudo vinha ocorrendo. E meus amigos nem comentavam sobre o assunto. Uma noite eles me levaram para jantar em um restaurante numa região bem tranqüila e longe do housing. E eu lembro bem de ter perguntado: “vocês não ficam preocupados com essa história? Tudo está acontecendo aqui tão perto. Para esse maluco fugir para cá é um pulo!”. A resposta deles veio na maior calma que se possa imaginar: “nãaaaaaao. Não temos o menor medo. Essas coisas são normais por aqui. Tem sempre um maluco com uma arma na mão para fazer besteira. É parte da insanidade do meu país. Não dá para parar a nossa vida em função de mais uma história como tantas outras”.

Fiquei chocada. Fato. Como poderiam estar tranqüilos com um louco varrido à solta, fazendo vítimas a esmo? No momento seguinte, no entanto, pensei no meu país e na minha cidade. Muito se fala sobre assalto e balas perdidas no Rio de Janeiro. Muito se fala sobre agressão no trânsito, ação de polícia, milícia e bandidagem comendo solta. A gente deixa, por acaso, de circular pelas ruas? Não! É preciso viver, se dar ao direito de ir e vir. E mesmo tomando todas as precauções que supomos serem as melhores para a nossa autodefesa, estamos sujeitos sempre ao acaso das circunstâncias. E refleti que as frases: “tem sempre um maluco com uma arma na mão para fazer besteira. Não dá para parar a nossa vida em função de mais uma história como tantas outras” é a pura e dura verdade que temos pela frente, estampada nos jornais.

Hoje eu leio que turistas são assaltados em Búzios; que piora o quadro clínico da idosa baleada na Avenida Brasil no domingo; que homem é preso ao tentar escalar e cair de um prédio no Leblon. No entanto, a notícia que mais me chocou não aconteceu no meu estado. Em São Paulo, um homem é preso com fuzis usados para caçar elefante na África. Cuma? Selva de pedra? Tão louca quanto essa notícia, foi saber que uma mulher foi flechada em Nova York. Sim, uma flecha de 76 centímetros perfurou o seu estômago. Já já vamos ler nos noticiários que elefante foi atingido por caminhão desgovernado no trânsito louco da selva africana ou que o tigre teve a sua “bengala” furtada por bandidos nas perigosas trilhas da savana. Quando a ordem natural das coisas se altera, a lei que fica é a da sobrevivência.